sexta-feira, 22 de junho de 2012
A noite é uma criança (2)
Ela era uma princesa da noite e vivia num antigo palácio na encosta de uma colina. O seu destino para todas as madrugadas era um alpendre abobadado, cujas paredes revestiam-se de murais esbatidos pelo tempo.
Depois de todos na casa se recolherem para os seus aposentos, incluindo as aias que dormiam no quarto ao lado, Ariadne levantava-se da sua cama e escapava-se para os corredores silenciosos, percorrendo-os, sempre com a graciosidade com que era conhecida, até à grande janela que emoldurava toda a parede a sul.
Conhecia todas as formas de brisa noturna que a envolviam quando abria os vidros e pisava as lajes do chão com os seus pés descalços. E encostada ao gradil florido, sustentado por colunas tão lisas quanto os seus dias eram monótonos, envergando uma fina capa de tecido sobre o seu corpo esguio, permitia ao luar curvar-se perante o seu encanto gelado...
Numa dessas noites, a lua não apareceu, escurecendo tudo em redor. O céu parecia limpo e as estrelas cintilavam como em todas as noites ancestrais.
Daquela única vez, Ariadne trazia um punhal à cintura e aguardava pacientemente recolhida nas sombras do alpendre.
Esperou até escutar o som de um galho a quebrar no jardim, próximo dali, e, instintivamente, tocou na lâmina por baixo das suas vestes. Nunca a tinha utilizado. Não sentia medo. Não sentia coisa alguma... Chamavam-lhe A Princesa da Noite, fria e dura como eram as noites no Norte. Os seus olhos negros eram glaciais e implacáveis, forçando cada homem ou mulher que a enfrentasse a subjugar-se a ela. Não havia nada que não fosse feito à sua vontade.
Ao final da tarde daquele dia, ao mesmo tempo que os raios dourados do sol se escapavam do prado, recebera uma visita na varanda da janela do seu quarto. Sentada numa cadeira, diante do seu reflexo imparcial, viu chegar um corvo, pousando no peitoril e virando os olhos inquietos na direção dela. Ao aproximar-se viu que a ave não fugira, enfrentando e igualando a escuridão do seu olhar. Duas criaturas da noite, tão longe do lugar onde pertenciam...
Quando abriu a portada percebeu que trazia um bilhete preso numa das patas. Levantou a mão, devagar, e a ave voou inesperadamente para o seu braço. Depois de a deixar desatar o papel da sua pata, o corvo levantou novamente voo, não sobre as árvores, mas embrenhando-se nas suas ramagens. Por momentos, parece-lha que esta afrouxara o voo como se fosse deter-se sobre algo, ou alguém...
Olhava agora para o bilhete que tinha desenrolado entre os seus dedos, cuja mensagem era apenas um local e hora.
E ali estava ela, como em todas as noites e como em nenhuma delas, à espera, aconchegando-se no gume do seu punhal de encontro às suas coxas...
quarta-feira, 20 de junho de 2012
A noite é uma criança
Ela era uma princesa da noite e vivia num antigo palácio na encosta de uma colina. O seu destino para todas as madrugadas era um alpendre abobadado, cujas paredes revestiam-se de murais esbatidos pelo tempo.
Depois de todos na casa se recolherem para os seus aposentos, incluindo as aias que dormiam no quarto ao lado, Ariadne levantava-se da sua cama e escapava-se para os corredores silenciosos, percorrendo-os, sempre com a graciosidade com que era conhecida, até à grande janela que emoldurava toda a parede a sul.
Conhecia todas as formas de brisa noturna que a envolviam quando abria os vidros e pisava as lajes do chão com os seus pés descalços. E encostada ao gradil florido, sustentado por colunas tão lisas quanto os seus dias eram monótonos, envergando uma fina capa de tecido sobre o seu corpo esguio, permitia ao luar curvar-se perante o seu encanto gelado...
Há dias e alturas na vida para as quais o tempo corre através dos nossos dedos, e as histórias aparecem como fragmentos, aspirando algo mais.
Os meus filhos tiveram as suas festas de fim de ano na escola e, em breve, comemoram ambos o seu aniversário. E, apesar das poucas horas que dediquei à escrita, o que me conforta e me realiza a 100% é que tenho estado sempre junto deles, assistindo dos melhores lugares, e também dos bastidores, o que me faz uma mãe afortunada.
Há tempo para tudo na vida...
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Fragmentos medievais
As ondas rebentavam contra o casco, salpicando a amurada da embarcação. O vento estivera a favor, facilitando a navegação, o que lhes deu algumas horas de avanço. Dali, conseguia ver a costa entrecortada por falésias que o mar esculpira ao longo dos séculos. Para trás, a terra estendia-se por campos rasteiros, sem se distinguir nenhum vale ou elevação, até cair novamente no oceano.
Também ele tinha sonhado, visões que estava cada vez mais perto de entender...
A música animava o acampamento, sendo quase impossível resistir-lhe. A noite estava quente e o ambiente era alegre. Homens, mulheres, os mais velhos e os mais novos saltavam sobre a relva, uns com ritmo, outros desordenadamente; estes erguiam as canecas de cerveja entornando mais do que conseguiam beber. Ninguém estava atento o suficiente para se aperceber daqueles que não compareceram na dança de grupo, para se encontrarem na última tenda...
Algo na floresta despertara, apesar da noite estar bem avançada. O luar penetrava através das árvores centenárias, propagando o seu brilho no tapete de musgo onde ambos se deitavam. As nascentes murmuravam, um grilo cantava próximo dali e os galhos estalavam, num e noutro momento. E por detrás de um arbusto, confundindo-se com as sombras da madrugada, um ser ainda mais antigo vigiava, protegendo a serenidade do bosque, acalmando-o com o seu olhar celeste e a delicadeza do seu semblante...
Atirada contra a parede fria dos subterrâneos da fortaleza, embrenhada na escuridão, ela pensou pela primeira vez nos pais. O que estariam eles a fazer? Provavelmente a sua mãe tricotava sentada no alpendre, por vezes perdendo o olhar vazio no vasto oceano em diante, e o seu pai... o seu pai estaria à procura, agora não de um, mas de dois filhos. Não imaginava a desolação do destino que lhes tinha causado, e do seu próprio dali por instantes. Já ouvia o eco das correntes e dos pesados passos no corredor, cada vez mais e mais nítido...
O ressoar do chifre lançou-se sobre a planície como um trovão, marcando o início da guerra no crepúsculo. Os cavalos esperavam ansiosos no topo da colina. Num deles, montava Tenemur, e ao seu lado, como sempre, estava o seu companheiro e fiel amigo de todos os tempos, Wolfric. Podia ver-lhe a tez incendiada pela ânsia da batalha por travar e por fazer desabar o seu pesado machado sobre quem se lhe atravessasse no caminho. Devia-lhe a vida, mais do que uma vez, e em breve talvez tivesse a oportunidade de pagar a sua dívida. Se os céus o permitissem, ou o próprio Wolfric...
O seu vestido irradiava chamas de cor, rodopiando sobre o estrado, descobrindo um pedaço de pele aqui e ali, os cabelos sacudindo sobre o rosto e os braços, que alçava com alguma provocação entre olhares despidos de pretextos. Fazia tanto tempo que não a via sorrir, mordendo ligeiramente os lábios rosados na sua direção. Desejava-a todos os dias, e aquela noite não era exceção...
O que eu escolhi desta vez, foi algo bem mais desordenado. Já não faltavam os contos soltos... Escrevi com o coração, com maior ou menor sentido, ao ritmo de uma coletânea de músicas celtas, que definiram o conteúdo dos parágrafos despegados que aqui estão. Nem tão pouco estão com a revisão feita, por isso perdoem as incorreções. O que eu sentia falta desta liberdade...
Também ele tinha sonhado, visões que estava cada vez mais perto de entender...
A música animava o acampamento, sendo quase impossível resistir-lhe. A noite estava quente e o ambiente era alegre. Homens, mulheres, os mais velhos e os mais novos saltavam sobre a relva, uns com ritmo, outros desordenadamente; estes erguiam as canecas de cerveja entornando mais do que conseguiam beber. Ninguém estava atento o suficiente para se aperceber daqueles que não compareceram na dança de grupo, para se encontrarem na última tenda...
Atirada contra a parede fria dos subterrâneos da fortaleza, embrenhada na escuridão, ela pensou pela primeira vez nos pais. O que estariam eles a fazer? Provavelmente a sua mãe tricotava sentada no alpendre, por vezes perdendo o olhar vazio no vasto oceano em diante, e o seu pai... o seu pai estaria à procura, agora não de um, mas de dois filhos. Não imaginava a desolação do destino que lhes tinha causado, e do seu próprio dali por instantes. Já ouvia o eco das correntes e dos pesados passos no corredor, cada vez mais e mais nítido...
O ressoar do chifre lançou-se sobre a planície como um trovão, marcando o início da guerra no crepúsculo. Os cavalos esperavam ansiosos no topo da colina. Num deles, montava Tenemur, e ao seu lado, como sempre, estava o seu companheiro e fiel amigo de todos os tempos, Wolfric. Podia ver-lhe a tez incendiada pela ânsia da batalha por travar e por fazer desabar o seu pesado machado sobre quem se lhe atravessasse no caminho. Devia-lhe a vida, mais do que uma vez, e em breve talvez tivesse a oportunidade de pagar a sua dívida. Se os céus o permitissem, ou o próprio Wolfric...
O seu vestido irradiava chamas de cor, rodopiando sobre o estrado, descobrindo um pedaço de pele aqui e ali, os cabelos sacudindo sobre o rosto e os braços, que alçava com alguma provocação entre olhares despidos de pretextos. Fazia tanto tempo que não a via sorrir, mordendo ligeiramente os lábios rosados na sua direção. Desejava-a todos os dias, e aquela noite não era exceção...
O que eu escolhi desta vez, foi algo bem mais desordenado. Já não faltavam os contos soltos... Escrevi com o coração, com maior ou menor sentido, ao ritmo de uma coletânea de músicas celtas, que definiram o conteúdo dos parágrafos despegados que aqui estão. Nem tão pouco estão com a revisão feita, por isso perdoem as incorreções. O que eu sentia falta desta liberdade...
quarta-feira, 30 de maio de 2012
No fim do mundo
Kaya vivia no topo de um penhasco, sobre as cristas do mar azul. Naquela zona, o vento chicoteava as praias desertas, os rochedos escarpados e as planícies agrestes, que se estendiam numa circunferência delimitada pelas águas do oceano, uivando desde o amanhecer até de madrugada. Uma ou outra casa despontavam nos campos secos, todas semelhantes entre si, e a parca vegetação que se atrevia a crescer neles resistia aos vendavais e às tempestades que, com frequência, assomavam a região. Não havia muito mais naquele fim de mundo.
Todos os dias, sem exceção, Kaya passava o final de cada tarde debruçada sobre a imensidão que a rodeava, alta e hirta. Determinada a aguardar por algo ou alguém que a levasse para longe, dedicava-se a reviver os seus sonhos, um por um, enquanto o sol se deitava no horizonte e o entardecer lhe gelava a alma.
Não sabia que tipo de embarcação esperar, mas sabia que o seu bilhete de saída viria do mar. Era o que lhe diziam os sonhos, todas as noites, acordando-a para só voltar a adormecer quando o céu se tingia de um tom mais claro. Pouco tempo depois vinha a sua mãe para a despertar.
Quando partisse, os seus pais iriam ficar completamente sós. O seu único irmão tinha desaparecido muitos anos antes, mergulhando no abismo durante uma brincadeira mortal na falésia. O seu pai nunca recuperara da dor, ainda se lançando frequentemente no mar picado dentro de um bote humilde. Ela não sabia o que podia ele estar à procura, depois de todos aqueles anos, mas nunca se atrevera a perguntar. Na verdade, não havia muito que se dissesse ou ouvisse naquela casa, sendo que qualquer tentativa de diálogo caía rapidamente no silêncio, quebrado apenas pelo tilintar da loiça que a mãe se aprontava a arrumar, apesar de nunca haver nada fora do sítio.
Fazia algum tempo que ela soubera que iria partir. Foi quando os seus sonhos começaram, iluminando a única saída possível. Não havia mais nada para ela ali, a não ser um buraco sem fim que a oprimia. Não queria dizer que esta decisão não a magoasse, mas todos os dias já lhe doía a ausência de tudo...
Contemplava, então, as ondas bravias com o verde baço dos seus olhos, que também haviam perdido o brilho, à espera daqueles olhos que tinham voltado a acentuar o azul do mar, dos revoltos cabelos pretos, dos lábios molhados e salgados e daquele abraço compacto onde sentira o seu corpo docemente esmagado sobre o chão áspero do casco do barco. Continuava à espera de tudo aquilo outra vez, desde aquela primeira noite, há catorze luas atrás...
Todos os dias, sem exceção, Kaya passava o final de cada tarde debruçada sobre a imensidão que a rodeava, alta e hirta. Determinada a aguardar por algo ou alguém que a levasse para longe, dedicava-se a reviver os seus sonhos, um por um, enquanto o sol se deitava no horizonte e o entardecer lhe gelava a alma.
Não sabia que tipo de embarcação esperar, mas sabia que o seu bilhete de saída viria do mar. Era o que lhe diziam os sonhos, todas as noites, acordando-a para só voltar a adormecer quando o céu se tingia de um tom mais claro. Pouco tempo depois vinha a sua mãe para a despertar.
Quando partisse, os seus pais iriam ficar completamente sós. O seu único irmão tinha desaparecido muitos anos antes, mergulhando no abismo durante uma brincadeira mortal na falésia. O seu pai nunca recuperara da dor, ainda se lançando frequentemente no mar picado dentro de um bote humilde. Ela não sabia o que podia ele estar à procura, depois de todos aqueles anos, mas nunca se atrevera a perguntar. Na verdade, não havia muito que se dissesse ou ouvisse naquela casa, sendo que qualquer tentativa de diálogo caía rapidamente no silêncio, quebrado apenas pelo tilintar da loiça que a mãe se aprontava a arrumar, apesar de nunca haver nada fora do sítio.
Fazia algum tempo que ela soubera que iria partir. Foi quando os seus sonhos começaram, iluminando a única saída possível. Não havia mais nada para ela ali, a não ser um buraco sem fim que a oprimia. Não queria dizer que esta decisão não a magoasse, mas todos os dias já lhe doía a ausência de tudo...
Contemplava, então, as ondas bravias com o verde baço dos seus olhos, que também haviam perdido o brilho, à espera daqueles olhos que tinham voltado a acentuar o azul do mar, dos revoltos cabelos pretos, dos lábios molhados e salgados e daquele abraço compacto onde sentira o seu corpo docemente esmagado sobre o chão áspero do casco do barco. Continuava à espera de tudo aquilo outra vez, desde aquela primeira noite, há catorze luas atrás...
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Murmúrios da vila
O meu dia começou ali, naquele instante. Não usava relógio, mas o sol dizia-me que eram perto das cinco da tarde. Na verdade, eu não sei interpretar o horário do sol, mas guiei-me pela sombra do palácio, em pleno mês de Agosto, já que o local me era bem familiar.
As silhuetas avançavam ao longo das ruas sinuosas, tricotando caminho como se tivessem todo o tempo do mundo, avançando e retrocedendo, hesitando diante de um mapa e apontando o dedo para vários lugares ao mesmo tempo.
As minúsculas partículas de vidro incrustadas nos caminhos deixaram de refletir a luz, mas ninguém deu por isso, a não ser eu. Ainda era cedo, mas o sol já iniciara o seu lento e secreto percurso de fuga, enquanto dezenas de pessoas inundavam a praça central, igual a todos os dias.
Sorvi lentamente o cigarro, retendo a voluta de fumo até lacrimejar. Então, soltei-a, contemplando a imagem distorcida pela cortina trémula que ameaçava brotar dos meus olhos, moldando-se e trasformando-se numa massa duvidosa e indefinida, até a minha visão voltar ao normal. Esbocei uma careta de repreensão. Devia deixar de fumar, se é que valia a pena...
Entre os meus dedos, a coluna de cinza ameaçava tombar. Juntei-lhe o peso ambíguo da minha consciência e não resistiu muito mais. Por fim, atirei o cigarro ao chão e amachuquei-o nas lajes da ladeira que conduzia às traseiras do palácio.
Apesar de toda a azáfama diária da vila, naquele momento, Sintra ainda se entorpecia entre sonhos ancestrais. De noite é que velava a lua, ou a ausência dela, e todos os mistérios que se imiscuíam nas sombras. Normalmente, eu fazia parte, quando começassem os murmúrios...
Demorei-me um pouco mais na minha ociosidade, projetando, sem querer, a mente para trás.
Em diante, a serra elevava-se num terreno acidentado até à haste da bandeira. Lembrei-me do profundo prazer ao soerguer-me uma tarde sobre a varanda de um rochedo, lavado em suor, escutando-a sacudir ao vento. Detinha o mundo a meus pés, debaixo de uma chuva miudinha que fingia as lágrimas nos meus olhos, e nesse dia o meu espírito magoado e revolto encontrara um rumo mais apaziguado. Daí para a frente, trepar aquela encosta íngreme passou a fazer parte de um processo de cicatrização que infligi a mim mesmo.
Assim que os sinos tocaram confirmando as horas, apeei caminho. Desta vez, não havia lugar nem hora marcada, embora hora nunca tivesse havido.
Em breve, os telhados cobrir-se-iam de ouro e das janelas abertas seriam desvendados a pouco e pouco os fragmentos da história de cada família, menos a minha. A minha estrada é a mais vazia e solitária de todas...
Este é um texto que encontrei durante as arrumações da semana passada e que escrevi há cerca de uns sete ou oito anos. No entanto, não resisti a dar-lhe um tratamento ao transcrevê-lo para aqui.
As silhuetas avançavam ao longo das ruas sinuosas, tricotando caminho como se tivessem todo o tempo do mundo, avançando e retrocedendo, hesitando diante de um mapa e apontando o dedo para vários lugares ao mesmo tempo.
As minúsculas partículas de vidro incrustadas nos caminhos deixaram de refletir a luz, mas ninguém deu por isso, a não ser eu. Ainda era cedo, mas o sol já iniciara o seu lento e secreto percurso de fuga, enquanto dezenas de pessoas inundavam a praça central, igual a todos os dias.
Sorvi lentamente o cigarro, retendo a voluta de fumo até lacrimejar. Então, soltei-a, contemplando a imagem distorcida pela cortina trémula que ameaçava brotar dos meus olhos, moldando-se e trasformando-se numa massa duvidosa e indefinida, até a minha visão voltar ao normal. Esbocei uma careta de repreensão. Devia deixar de fumar, se é que valia a pena...
Entre os meus dedos, a coluna de cinza ameaçava tombar. Juntei-lhe o peso ambíguo da minha consciência e não resistiu muito mais. Por fim, atirei o cigarro ao chão e amachuquei-o nas lajes da ladeira que conduzia às traseiras do palácio.
Apesar de toda a azáfama diária da vila, naquele momento, Sintra ainda se entorpecia entre sonhos ancestrais. De noite é que velava a lua, ou a ausência dela, e todos os mistérios que se imiscuíam nas sombras. Normalmente, eu fazia parte, quando começassem os murmúrios...
Demorei-me um pouco mais na minha ociosidade, projetando, sem querer, a mente para trás.
Em diante, a serra elevava-se num terreno acidentado até à haste da bandeira. Lembrei-me do profundo prazer ao soerguer-me uma tarde sobre a varanda de um rochedo, lavado em suor, escutando-a sacudir ao vento. Detinha o mundo a meus pés, debaixo de uma chuva miudinha que fingia as lágrimas nos meus olhos, e nesse dia o meu espírito magoado e revolto encontrara um rumo mais apaziguado. Daí para a frente, trepar aquela encosta íngreme passou a fazer parte de um processo de cicatrização que infligi a mim mesmo.
Assim que os sinos tocaram confirmando as horas, apeei caminho. Desta vez, não havia lugar nem hora marcada, embora hora nunca tivesse havido.
Em breve, os telhados cobrir-se-iam de ouro e das janelas abertas seriam desvendados a pouco e pouco os fragmentos da história de cada família, menos a minha. A minha estrada é a mais vazia e solitária de todas...
Este é um texto que encontrei durante as arrumações da semana passada e que escrevi há cerca de uns sete ou oito anos. No entanto, não resisti a dar-lhe um tratamento ao transcrevê-lo para aqui.
terça-feira, 15 de maio de 2012
No pântano mal-amado (3)
Quanto mais sentia o pulsar crescer nas paredes do interior da árvore, também a névoa que invadira seus pensamentos se dissipava permitindo-lhe ver mais claramente.
Levantou-se no escuro. Só agora entendia o que se tinha passado e deixava-se tomar pela apreensão. Tacteou o chão frio procurando não esbarrar em nada. Se fosse silencioso, talvez conseguisse escapar sem ser notado.
Até ali tudo bem. Chegado à porta, encostou nela o ouvido e esperou. Não escutou nada para além do esgravatar na madeira. Duvidava quantos e que tipo de animais invisíveis viviam dentro daquelas paredes mofadas e debaixo do chão empoeirado, e era preferível que assim se mantivesse.
Entreabriu a porta, que chiou baixinho. Empurrou-a, lentamente, espreitando. A porta da rua estava aberta deixando o luar entrar, hesitante. Isso nunca acontecia, mas ele desconhecia. Naquela noite, a lua lançava um brilho refulgente fora do normal, unindo-se aos elementos que trabalhavam com um único propósito. Sentiu uma leve brisa tocar o ar pesado e distinguiu lá fora um gotejar lento como se as águas mórbidas do pântano finalmente se movessem. Conseguia ouvir o batimento da antiga árvore, e o da terra também, dentro de si, fundindo-se nele com se fossem um só, crescendo como uma labareda.
Até que uma voz esganiçada cortou o ar e abalou o fogo dentro dele.
- Os meus amiguinhos não te deixam dormir? Posso tratar deles, se quiseres. Eu posso ser muito convincente, por vezes!
A criatura nojenta e esquisita aparecera, repentinamente, à sua frente, sem ele ter percebido como. Parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos, que emitiam um brilho sombrio àquela luz, e pareceu-lhe novamente que ficavam maiores. Tentou resistir, procurando a voz da terra, da árvore e das águas lamacentas. Sentiu os pensamentos tornarem-se de novo prisioneiros, mas agora também a lua se apoderava dele, chamando-o para a luz.
Puxou-se das trevas e perguntou:
- Quem és tu?
O duende riu-se como um tolo, andando de um lado para o outro, rondando-o e tentando atravessá-lo com o olhar afiado sempre que encontrava uma oportunidade. Algo o estava a deixar inquieto.
- Ogru, é como me chamam. Sou uma criatura da terra e da noite e vivo neste pântano há mais tempo do que me é possível recordar. Queres que faça mais chá? Não recebo visitas muitas vezes, o que me faz um tanto indelicado... - a voz dele tinha tantas entoações como a de um oportunista, esforçando-se por o confundir e ludibriar. Mas algo estava terrivelmente errado, pensava o duende malvado. Desta vez, estava a ser difícil! Quanto mais arremessava a sua mente na dele para a dominar, recuava em ricochete. E aquele barulho ensurdecedor... Tum-tum-tum-Tum-TUM-TUM! Os seus ouvidos... contorcia-se de dor! "Pára!" - gritava, silenciosamente.
- Não quero o teu chá! - bradou o rapaz, determinado. - És uma criatura das trevas, Ogru, e um trapaceiro! Não me voltas a enganar com os teus truques baratos.
O duende nunca tivera uma aparência agradável, nem que tentasse, mas depois de ser desafiado encarnou uma personagem ainda mais primitiva e vil. O seu corpo cresceu, os seus olhos ficaram brancos e das suas mãos nasceram garras cobertas de germes.
Ao mesmo tempo, o rasto inflamado da lua espalhava-se no chão à sua volta. Este parecia dobrar-se sobre si próprio, ondulando como as ondas do mar bravo. Então, as raízes soltaram-se, como presas indomáveis, precipitando-se contra a criatura ainda mais feia e deformada, que se defendeu ao saltar bruscamente para os lugares onde ainda reinava a penumbra.
- Recebi-te na minha casa e tu atreves-te a provocar-me e a insurgir-te contra mim? - protestou ele, no escuro. - Nada, nem ninguém, vai conseguir vencer-me e libertar-te! Mesmo que saias desta árvore maldita, o pântano será a tua masmorra. Juro por toda o mal e enfermidade que existe neste mundo! Estás muito longe de casa, criança... - a voz silenciou-se e desapareceu na escuridão.
O pó levantara-se, dificultando-lhe ver e a respirar. Não havia sinais de Ogru, mas o chão continuava a agitar-se e as paredes ameaçavam abater-se esmagando tudo o que encontrasse pelo caminho. O trilho cintilante da lua esbatia-se através do caos que se instalara e retrocedia em agonia.
Ele não sabia que lidava com poderes demasiado antigos, forças tão ancestrais e selvagens que na maioria das vezes desconheciam a razão. Agiam por impulso e emoção, comandados pelo instinto, e facilmente deixavam-se levar, propagando-se como fogo, e às vezes transformando-se nele. As suas causas não conheciam limites. Eram imprecisos e buscavam, unicamente, o equilíbrio entre todas as coisas.
Escutou uma gargalhada distante, conhecida, vibrar através da poeira. Em frente, a porta encolhia-se. Desconhecia se era a árvore que se afundava no chão ou se era a casca que se alongava para encerrar qualquer acesso para o covil do mal, e se ele não se resolvesse ficaria para sempre sepultado nas profundezas daquele tronco.
Avançou aos tropeções no chão móvel, transpondo as raízes vivas e os ramos que se recolhiam de fora para dentro como lanças afiadas cujo único desejo era enterrarem-se em carne fresca.
A entrada, ou saída conforme a perspetiva, já era pequena e não parava de reduzir. Era agora ou nunca! Inspirou todas as partículas de ar - e de pó! - que conseguiu e projetou-se com todo o ímpeto que tinha. A sua sorte foi que um braço de tronco tinha encontrado o trajeto e empurrara-o já no ar, atirando-o com a força primitiva e antepassada que se alimentava daquele lugar.
Ele aterrou com a cara no chão, do outro lado, a poucos centímetros da lama. Olhou para trás, a tempo de ver a porta encerrar-se eternamente, acorrentada por todos os séculos para trás. Depois, e finalmente, é que se deitou de barriga para cima, permitindo-se a um minuto de repouso, enquanto se inundava pelo luar brilhante, no entanto frio...
Levantou-se no escuro. Só agora entendia o que se tinha passado e deixava-se tomar pela apreensão. Tacteou o chão frio procurando não esbarrar em nada. Se fosse silencioso, talvez conseguisse escapar sem ser notado.
Até ali tudo bem. Chegado à porta, encostou nela o ouvido e esperou. Não escutou nada para além do esgravatar na madeira. Duvidava quantos e que tipo de animais invisíveis viviam dentro daquelas paredes mofadas e debaixo do chão empoeirado, e era preferível que assim se mantivesse.
Entreabriu a porta, que chiou baixinho. Empurrou-a, lentamente, espreitando. A porta da rua estava aberta deixando o luar entrar, hesitante. Isso nunca acontecia, mas ele desconhecia. Naquela noite, a lua lançava um brilho refulgente fora do normal, unindo-se aos elementos que trabalhavam com um único propósito. Sentiu uma leve brisa tocar o ar pesado e distinguiu lá fora um gotejar lento como se as águas mórbidas do pântano finalmente se movessem. Conseguia ouvir o batimento da antiga árvore, e o da terra também, dentro de si, fundindo-se nele com se fossem um só, crescendo como uma labareda.
Até que uma voz esganiçada cortou o ar e abalou o fogo dentro dele.
- Os meus amiguinhos não te deixam dormir? Posso tratar deles, se quiseres. Eu posso ser muito convincente, por vezes!
A criatura nojenta e esquisita aparecera, repentinamente, à sua frente, sem ele ter percebido como. Parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos, que emitiam um brilho sombrio àquela luz, e pareceu-lhe novamente que ficavam maiores. Tentou resistir, procurando a voz da terra, da árvore e das águas lamacentas. Sentiu os pensamentos tornarem-se de novo prisioneiros, mas agora também a lua se apoderava dele, chamando-o para a luz.
Puxou-se das trevas e perguntou:
- Quem és tu?
O duende riu-se como um tolo, andando de um lado para o outro, rondando-o e tentando atravessá-lo com o olhar afiado sempre que encontrava uma oportunidade. Algo o estava a deixar inquieto.
- Ogru, é como me chamam. Sou uma criatura da terra e da noite e vivo neste pântano há mais tempo do que me é possível recordar. Queres que faça mais chá? Não recebo visitas muitas vezes, o que me faz um tanto indelicado... - a voz dele tinha tantas entoações como a de um oportunista, esforçando-se por o confundir e ludibriar. Mas algo estava terrivelmente errado, pensava o duende malvado. Desta vez, estava a ser difícil! Quanto mais arremessava a sua mente na dele para a dominar, recuava em ricochete. E aquele barulho ensurdecedor... Tum-tum-tum-Tum-TUM-TUM! Os seus ouvidos... contorcia-se de dor! "Pára!" - gritava, silenciosamente.
- Não quero o teu chá! - bradou o rapaz, determinado. - És uma criatura das trevas, Ogru, e um trapaceiro! Não me voltas a enganar com os teus truques baratos.
O duende nunca tivera uma aparência agradável, nem que tentasse, mas depois de ser desafiado encarnou uma personagem ainda mais primitiva e vil. O seu corpo cresceu, os seus olhos ficaram brancos e das suas mãos nasceram garras cobertas de germes.
Ao mesmo tempo, o rasto inflamado da lua espalhava-se no chão à sua volta. Este parecia dobrar-se sobre si próprio, ondulando como as ondas do mar bravo. Então, as raízes soltaram-se, como presas indomáveis, precipitando-se contra a criatura ainda mais feia e deformada, que se defendeu ao saltar bruscamente para os lugares onde ainda reinava a penumbra.
- Recebi-te na minha casa e tu atreves-te a provocar-me e a insurgir-te contra mim? - protestou ele, no escuro. - Nada, nem ninguém, vai conseguir vencer-me e libertar-te! Mesmo que saias desta árvore maldita, o pântano será a tua masmorra. Juro por toda o mal e enfermidade que existe neste mundo! Estás muito longe de casa, criança... - a voz silenciou-se e desapareceu na escuridão.
O pó levantara-se, dificultando-lhe ver e a respirar. Não havia sinais de Ogru, mas o chão continuava a agitar-se e as paredes ameaçavam abater-se esmagando tudo o que encontrasse pelo caminho. O trilho cintilante da lua esbatia-se através do caos que se instalara e retrocedia em agonia.
Ele não sabia que lidava com poderes demasiado antigos, forças tão ancestrais e selvagens que na maioria das vezes desconheciam a razão. Agiam por impulso e emoção, comandados pelo instinto, e facilmente deixavam-se levar, propagando-se como fogo, e às vezes transformando-se nele. As suas causas não conheciam limites. Eram imprecisos e buscavam, unicamente, o equilíbrio entre todas as coisas.
Escutou uma gargalhada distante, conhecida, vibrar através da poeira. Em frente, a porta encolhia-se. Desconhecia se era a árvore que se afundava no chão ou se era a casca que se alongava para encerrar qualquer acesso para o covil do mal, e se ele não se resolvesse ficaria para sempre sepultado nas profundezas daquele tronco.
Avançou aos tropeções no chão móvel, transpondo as raízes vivas e os ramos que se recolhiam de fora para dentro como lanças afiadas cujo único desejo era enterrarem-se em carne fresca.
A entrada, ou saída conforme a perspetiva, já era pequena e não parava de reduzir. Era agora ou nunca! Inspirou todas as partículas de ar - e de pó! - que conseguiu e projetou-se com todo o ímpeto que tinha. A sua sorte foi que um braço de tronco tinha encontrado o trajeto e empurrara-o já no ar, atirando-o com a força primitiva e antepassada que se alimentava daquele lugar.
Ele aterrou com a cara no chão, do outro lado, a poucos centímetros da lama. Olhou para trás, a tempo de ver a porta encerrar-se eternamente, acorrentada por todos os séculos para trás. Depois, e finalmente, é que se deitou de barriga para cima, permitindo-se a um minuto de repouso, enquanto se inundava pelo luar brilhante, no entanto frio...
segunda-feira, 14 de maio de 2012
No pântano mal-amado (2)
Numa daquelas noites horrorosas, o duende tinha ido lá para fora sentar-se numa pedra à beira do pântano intoxicado. Tinha as suas curtas pernas estendidas ao luar, como uma criança inofensiva, e assobiava com silvos desengonçados que arranhavam o cérebro.
Estava abafado, como sempre! E cheirava a decomposição. As rãs e os sapos escondiam-se dele no baixo manto de neblina que roçava nas águas negras e lentas, cobrindo o pântano até à altura do seu pescoço. Não queriam ser o seu próximo jantar!
De repente, tudo à sua volta ficou ainda mais silencioso. O duende suspendeu a sua ária agreste e endireitou-se, chacoalhando os velhos ossos. Havia um timbre diferente no ar.
Passado pouco tempo, distinguiu um vulto cinzento ao longe, contornando um tufo alto de ervas ressequidas e seguindo pelo trilho grosseiro por onde já nunca ninguém passava.
Captou o som dos seus passos com as suas orelhas pontiagudas e sorriu com um ar travesso. Ele ouvia melhor que muitos animais!
- Uma pessoa para mim! Toda para mim... - sibilou entre dentes, como uma serpente venenosa.
Atirou-se da pedra para o chão. O salto não era grande, mas ele era muito baixinho, até para um duende. Curvado sob o peso da sua corcunda, correu, parecendo uma cepa torta, para a curva mais adiante que fazia esquina com o antro da sua casa. Ali ficou à espera, deitado debaixo de uma monstruosa raíz, o que lhe pareceu ser uma eternidade!
Até que o som dos passos ficou mais alto, misturando-se com a subtil respiração de quem já caminhava fazia tempo, e ele viu a sombra aparecer, estranhamente mais alumiada pelo luar do que ser ali alguma vez o fora. Sentiu a inveja e o desdém. Mais tarde ajustaria contas com aquela lua empertigada!
Quando o homenzinho estranho passou por cima dele, esticou o pé e deu-lhe um pontapé seco. Este tropeçou e quase jurou que ouvira uma gargalhada trocista. Admirado, olhou em volta. Viu a raíz onde julgara ter prendido o pé e para seu espanto esta parecia encolher-se humildemente. Depois, o duende saltou atrás das suas costas, sobressaltando-o mais uma vez.
Agora sim, estava assustado! À sua frente tinha um ser deveras perturbador, um rosto cheio cravado em cima de um corpo magro e viscoso. Sentiu o cheiro a peixe morto. Repelido pela imagem daquela massa disforme, olhou para os seus pés, desproporcionais ao resto da figura. E aquelas órbitas mais escuras que as águas do pântano, onde vagueava perdido há largas horas desde que enveredara por um atalho, um caminho tão sinistro que - entendia agora - só podia tê-lo guiado para um lugar tão soturno como aquele...
- Estás perdido! Este é um lugar cheio de perigos a esta hora da noite. Anda, vem comigo!
Ouviu a peculiar criatura falar através de uma voz que lhe arrepiou os cabelos. Queria recusar, mas não conseguiu. Os seus olhos pretos cresceram e atraíram-no atrás dela, seguindo-a até ao outro lado da grande árvore onde tinha esbarrado - acreditava ele, ainda...
O duende continuava a falar, aliciando-o com comida para saciar a fome e uma cama para repousar o corpo cansado. Ele tinha acabado de fazer chá e biscoitos, ouvia, uma receita assombrosa da sua avó, "que descanse sem paz!" - teria ele dito?... não... ouvira mal, com certeza!
Viu-o atirar para trás uma porta minúscula cavada no tronco, que o obrigou a dobrar-se quase até ao chão para conseguir entrar. Cheirava pior lá dentro. Viu a criatura dirigir-se a um canto e acender uma vela verde.
- Sê mal-vindo à minha casa! - ele nem percebeu... - Senta-te.
Sentou-se na cadeira que ele virara para si. Ouviu um suspiro quando se sentou, mas não sabia de onde vinha.
O duende tirou um prato sujo da pia onde colocou uns bolos pretos. Serviu-lhe um chá vermelho, que tinha um sabor esquisito. Ainda tinha o travo e a impressão na língua da penugem que sentira.
Naquele momento, tentava descansar num quarto tão pequeno e desarrumado que parecia uma despensa. Não tinha janelas, tal como em toda a casa. E depois de ter apagado a vela - arrependera-se amargamente dessa ação -, a única luz era a dos milhares e insignificantes pares de olhos dos bichos que habitavam nas rugosidades das paredes circulares.
Estranhava, não só, tudo aquilo, como o facto de ter aceite ser levado sem levantar nenhuma questão, desde o momento em que trocara o olhar com o daquele ser que parecia ter saído de um conto de terror. Sentia-se pesado e embriagado, e sabia que não tinha sido do chá, pois já se sentia assim antes de penetrar nas entranhas daquela árvore.
Mas havia mais! Algo que, juntando a toda a excentricidade do que estava a viver, iria impedi-lo de fechar os olhos e de cair num sono atormentado. Deitado sobre um pano velho e amarelado que o seu anfitrião estendera no chão coberto de pó, o seu coração batia no mesmo compasso que o pulsar que pudera distinguir quando o silêncio da madrugada se instalou. Algo se debatia dentro daquela casca intemporal, fluindo nos veios do tronco e animando gradualmente um amaldiçoado estado latente, uma tremenda força que acordava ao fim de tantos e longos anos!
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