Kaya vivia no topo de um penhasco, sobre as cristas do mar azul. Naquela zona, o vento chicoteava as praias desertas, os rochedos escarpados e as planícies agrestes, que se estendiam numa circunferência delimitada pelas águas do oceano, uivando desde o amanhecer até de madrugada. Uma ou outra casa despontavam nos campos secos, todas semelhantes entre si, e a parca vegetação que se atrevia a crescer neles resistia aos vendavais e às tempestades que, com frequência, assomavam a região. Não havia muito mais naquele fim de mundo.
Todos os dias, sem exceção, Kaya passava o final de cada tarde debruçada sobre a imensidão que a rodeava, alta e hirta. Determinada a aguardar por algo ou alguém que a levasse para longe, dedicava-se a reviver os seus sonhos, um por um, enquanto o sol se deitava no horizonte e o entardecer lhe gelava a alma.
Não sabia que tipo de embarcação esperar, mas sabia que o seu bilhete de saída viria do mar. Era o que lhe diziam os sonhos, todas as noites, acordando-a para só voltar a adormecer quando o céu se tingia de um tom mais claro. Pouco tempo depois vinha a sua mãe para a despertar.
Quando partisse, os seus pais iriam ficar completamente sós. O seu único irmão tinha desaparecido muitos anos antes, mergulhando no abismo durante uma brincadeira mortal na falésia. O seu pai nunca recuperara da dor, ainda se lançando frequentemente no mar picado dentro de um bote humilde. Ela não sabia o que podia ele estar à procura, depois de todos aqueles anos, mas nunca se atrevera a perguntar. Na verdade, não havia muito que se dissesse ou ouvisse naquela casa, sendo que qualquer tentativa de diálogo caía rapidamente no silêncio, quebrado apenas pelo tilintar da loiça que a mãe se aprontava a arrumar, apesar de nunca haver nada fora do sítio.
Fazia algum tempo que ela soubera que iria partir. Foi quando os seus sonhos começaram, iluminando a única saída possível. Não havia mais nada para ela ali, a não ser um buraco sem fim que a oprimia. Não queria dizer que esta decisão não a magoasse, mas todos os dias já lhe doía a ausência de tudo...
Contemplava, então, as ondas bravias com o verde baço dos seus olhos, que também haviam perdido o brilho, à espera daqueles olhos que tinham voltado a acentuar o azul do mar, dos revoltos cabelos pretos, dos lábios molhados e salgados e daquele abraço compacto onde sentira o seu corpo docemente esmagado sobre o chão áspero do casco do barco. Continuava à espera de tudo aquilo outra vez, desde aquela primeira noite, há catorze luas atrás...
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quarta-feira, 30 de maio de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Murmúrios da vila
O meu dia começou ali, naquele instante. Não usava relógio, mas o sol dizia-me que eram perto das cinco da tarde. Na verdade, eu não sei interpretar o horário do sol, mas guiei-me pela sombra do palácio, em pleno mês de Agosto, já que o local me era bem familiar.
As silhuetas avançavam ao longo das ruas sinuosas, tricotando caminho como se tivessem todo o tempo do mundo, avançando e retrocedendo, hesitando diante de um mapa e apontando o dedo para vários lugares ao mesmo tempo.
As minúsculas partículas de vidro incrustadas nos caminhos deixaram de refletir a luz, mas ninguém deu por isso, a não ser eu. Ainda era cedo, mas o sol já iniciara o seu lento e secreto percurso de fuga, enquanto dezenas de pessoas inundavam a praça central, igual a todos os dias.
Sorvi lentamente o cigarro, retendo a voluta de fumo até lacrimejar. Então, soltei-a, contemplando a imagem distorcida pela cortina trémula que ameaçava brotar dos meus olhos, moldando-se e trasformando-se numa massa duvidosa e indefinida, até a minha visão voltar ao normal. Esbocei uma careta de repreensão. Devia deixar de fumar, se é que valia a pena...
Entre os meus dedos, a coluna de cinza ameaçava tombar. Juntei-lhe o peso ambíguo da minha consciência e não resistiu muito mais. Por fim, atirei o cigarro ao chão e amachuquei-o nas lajes da ladeira que conduzia às traseiras do palácio.
Apesar de toda a azáfama diária da vila, naquele momento, Sintra ainda se entorpecia entre sonhos ancestrais. De noite é que velava a lua, ou a ausência dela, e todos os mistérios que se imiscuíam nas sombras. Normalmente, eu fazia parte, quando começassem os murmúrios...
Demorei-me um pouco mais na minha ociosidade, projetando, sem querer, a mente para trás.
Em diante, a serra elevava-se num terreno acidentado até à haste da bandeira. Lembrei-me do profundo prazer ao soerguer-me uma tarde sobre a varanda de um rochedo, lavado em suor, escutando-a sacudir ao vento. Detinha o mundo a meus pés, debaixo de uma chuva miudinha que fingia as lágrimas nos meus olhos, e nesse dia o meu espírito magoado e revolto encontrara um rumo mais apaziguado. Daí para a frente, trepar aquela encosta íngreme passou a fazer parte de um processo de cicatrização que infligi a mim mesmo.
Assim que os sinos tocaram confirmando as horas, apeei caminho. Desta vez, não havia lugar nem hora marcada, embora hora nunca tivesse havido.
Em breve, os telhados cobrir-se-iam de ouro e das janelas abertas seriam desvendados a pouco e pouco os fragmentos da história de cada família, menos a minha. A minha estrada é a mais vazia e solitária de todas...
Este é um texto que encontrei durante as arrumações da semana passada e que escrevi há cerca de uns sete ou oito anos. No entanto, não resisti a dar-lhe um tratamento ao transcrevê-lo para aqui.
As silhuetas avançavam ao longo das ruas sinuosas, tricotando caminho como se tivessem todo o tempo do mundo, avançando e retrocedendo, hesitando diante de um mapa e apontando o dedo para vários lugares ao mesmo tempo.
As minúsculas partículas de vidro incrustadas nos caminhos deixaram de refletir a luz, mas ninguém deu por isso, a não ser eu. Ainda era cedo, mas o sol já iniciara o seu lento e secreto percurso de fuga, enquanto dezenas de pessoas inundavam a praça central, igual a todos os dias.
Sorvi lentamente o cigarro, retendo a voluta de fumo até lacrimejar. Então, soltei-a, contemplando a imagem distorcida pela cortina trémula que ameaçava brotar dos meus olhos, moldando-se e trasformando-se numa massa duvidosa e indefinida, até a minha visão voltar ao normal. Esbocei uma careta de repreensão. Devia deixar de fumar, se é que valia a pena...
Entre os meus dedos, a coluna de cinza ameaçava tombar. Juntei-lhe o peso ambíguo da minha consciência e não resistiu muito mais. Por fim, atirei o cigarro ao chão e amachuquei-o nas lajes da ladeira que conduzia às traseiras do palácio.
Apesar de toda a azáfama diária da vila, naquele momento, Sintra ainda se entorpecia entre sonhos ancestrais. De noite é que velava a lua, ou a ausência dela, e todos os mistérios que se imiscuíam nas sombras. Normalmente, eu fazia parte, quando começassem os murmúrios...
Demorei-me um pouco mais na minha ociosidade, projetando, sem querer, a mente para trás.
Em diante, a serra elevava-se num terreno acidentado até à haste da bandeira. Lembrei-me do profundo prazer ao soerguer-me uma tarde sobre a varanda de um rochedo, lavado em suor, escutando-a sacudir ao vento. Detinha o mundo a meus pés, debaixo de uma chuva miudinha que fingia as lágrimas nos meus olhos, e nesse dia o meu espírito magoado e revolto encontrara um rumo mais apaziguado. Daí para a frente, trepar aquela encosta íngreme passou a fazer parte de um processo de cicatrização que infligi a mim mesmo.
Assim que os sinos tocaram confirmando as horas, apeei caminho. Desta vez, não havia lugar nem hora marcada, embora hora nunca tivesse havido.
Em breve, os telhados cobrir-se-iam de ouro e das janelas abertas seriam desvendados a pouco e pouco os fragmentos da história de cada família, menos a minha. A minha estrada é a mais vazia e solitária de todas...
Este é um texto que encontrei durante as arrumações da semana passada e que escrevi há cerca de uns sete ou oito anos. No entanto, não resisti a dar-lhe um tratamento ao transcrevê-lo para aqui.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Prisão
Há muito tempo atrás, numa aldeia refugiada num vale, vivia uma triste rapariguinha de cabelos escorridos.
Levantava-se muito cedo para trabalhar nos campos com os pais, mas antes ainda ajudava a mãe com o pão na casa do forno. Quando voltava não tinha folga, como as outras crianças, para brincar e fazer ecoar risos e gargalhadas pelas lajes dos caminhos, até o sino da igreja consolidar a hora do jantar.
Era a única filha do casal. À noite, ajudava um pouco mais nas lidas da casa, enquanto o pai corrompia-se na taberna lá do sítio. Atravessara aquela idade em que pensava, primeiro, em si própria. Agora só lamentava pela sua mãe, largada sozinha longas horas noite dentro.
Com o pai, não tinha estabelecido grande afinidade. Ninguém era violento com ninguém, mas também não havia espaço para consolo. Para ela, não passavam de dois estranhos forçados a conviver na mesma casa.
Assim, antes de se deitar, abeirava-se à janela do seu quarto, com os olhos negros lançados ao longe, nas montanhas, depois dos bosques e da floresta, e sonhava com as terras além.
Mas logo veio a doença, que lhe roubou a mãe e, de uma certa forma, levou-lhe também o pai, que passou a prolongar, ainda mais, as madrugadas na companhia do vinho. E uma noite ele não voltou...
Ficou completamente sozinha. Ela e os crucifixos silenciosos da mãe à beira do leito.
Então, um dia, atravessando com o olhar os picos frondosos das montanhas, decidiu partir. Aventurou-se, sozinha, de sacola às costas, depois de transpor a última ponte sobre o último braço do rio, que separava a aldeia da incivilização, através da floresta e dos segredos lá mantidos, para nunca mais regressar. Todos conheciam os perigos que os bosques encerravam. As armadilhas dos caçadores, os animais selvagens, as cascatas resvaladiças, as plantas venenosas, a fome...
Não se soube mais dela e, depois disso, o mais certo era que o seu nome deixasse de ser comentado nas conversas entre os aldeãos, e até que o seu rosto fosse esquecido, mas isso não aconteceu. O nome dela ainda surge nas histórias de Inverno à lareira, bem como os fatídicos destinos que se lhe afiguraram, mas nos serões de outras casas, longe da aldeia.
Isto porque, na noite seguinte à sua partida, os sons vieram. Das sinuosas encostas, uma lúgubre lamúria desceu como uma neblina, densa e vagarosa, e abateu-se pairando sobre os telhados. Aterrorizou as gentes da aldeia e afugentou os mais corajosos para dentro das suas casas, que se fecharam e trancaram a sete chaves. Até os que não eram crentes passaram a rezar, a partir daquela noite...
Rapidamente vieram os avisos para ninguém se aventurar nas profundezas dos bosques e para as crianças não atravessarem a orla da floresta. Destruiu-se a última ponte e ergueram-se barricadas.
Assim viveu a aldeia até ao último dos seus dias, até ser abandonada e os últimos velhos morrerem, sem nunca ninguém ter prosseguido para norte, ou sequer ter-se avistado vir de lá alguém.
A vegetação tornou-se mais cerrada, as ramagens tão escuras e apertadas que os raios de sol deixaram de conseguir penetrar e acabaram por extinguir aquele choro sombrio e inconsolável, abafando-o e aprisionando-o nas masmorras da floresta.
Ninguém mais ouviu, mas isso não significava que (ela) não estivesse lá.
Este texto decorre do desafio lançado aqui.
Levantava-se muito cedo para trabalhar nos campos com os pais, mas antes ainda ajudava a mãe com o pão na casa do forno. Quando voltava não tinha folga, como as outras crianças, para brincar e fazer ecoar risos e gargalhadas pelas lajes dos caminhos, até o sino da igreja consolidar a hora do jantar.
Era a única filha do casal. À noite, ajudava um pouco mais nas lidas da casa, enquanto o pai corrompia-se na taberna lá do sítio. Atravessara aquela idade em que pensava, primeiro, em si própria. Agora só lamentava pela sua mãe, largada sozinha longas horas noite dentro.
Com o pai, não tinha estabelecido grande afinidade. Ninguém era violento com ninguém, mas também não havia espaço para consolo. Para ela, não passavam de dois estranhos forçados a conviver na mesma casa.
Assim, antes de se deitar, abeirava-se à janela do seu quarto, com os olhos negros lançados ao longe, nas montanhas, depois dos bosques e da floresta, e sonhava com as terras além.
Mas logo veio a doença, que lhe roubou a mãe e, de uma certa forma, levou-lhe também o pai, que passou a prolongar, ainda mais, as madrugadas na companhia do vinho. E uma noite ele não voltou...
Ficou completamente sozinha. Ela e os crucifixos silenciosos da mãe à beira do leito.
Então, um dia, atravessando com o olhar os picos frondosos das montanhas, decidiu partir. Aventurou-se, sozinha, de sacola às costas, depois de transpor a última ponte sobre o último braço do rio, que separava a aldeia da incivilização, através da floresta e dos segredos lá mantidos, para nunca mais regressar. Todos conheciam os perigos que os bosques encerravam. As armadilhas dos caçadores, os animais selvagens, as cascatas resvaladiças, as plantas venenosas, a fome...
Não se soube mais dela e, depois disso, o mais certo era que o seu nome deixasse de ser comentado nas conversas entre os aldeãos, e até que o seu rosto fosse esquecido, mas isso não aconteceu. O nome dela ainda surge nas histórias de Inverno à lareira, bem como os fatídicos destinos que se lhe afiguraram, mas nos serões de outras casas, longe da aldeia.
Isto porque, na noite seguinte à sua partida, os sons vieram. Das sinuosas encostas, uma lúgubre lamúria desceu como uma neblina, densa e vagarosa, e abateu-se pairando sobre os telhados. Aterrorizou as gentes da aldeia e afugentou os mais corajosos para dentro das suas casas, que se fecharam e trancaram a sete chaves. Até os que não eram crentes passaram a rezar, a partir daquela noite...
Rapidamente vieram os avisos para ninguém se aventurar nas profundezas dos bosques e para as crianças não atravessarem a orla da floresta. Destruiu-se a última ponte e ergueram-se barricadas.
Assim viveu a aldeia até ao último dos seus dias, até ser abandonada e os últimos velhos morrerem, sem nunca ninguém ter prosseguido para norte, ou sequer ter-se avistado vir de lá alguém.
A vegetação tornou-se mais cerrada, as ramagens tão escuras e apertadas que os raios de sol deixaram de conseguir penetrar e acabaram por extinguir aquele choro sombrio e inconsolável, abafando-o e aprisionando-o nas masmorras da floresta.
Ninguém mais ouviu, mas isso não significava que (ela) não estivesse lá.
Este texto decorre do desafio lançado aqui.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
O certo e o errado
No parque de estacionamento ela esperava impaciente, com um nervoso miudinho a aflorar-lhe na pele. Uma lua minguante sorria ironicamente no céu. O que estava ela a fazer?
Os largos anos passados em silêncio, cruzando olhares acanhados e percorrendo os mesmos corredores e cantinas, tinham sido ásperos com eles. Era muito jovem para se conseguir revelar com esplendor e confiança. Nos anos seguintes buscara o conforto e a segurança noutros rostos, mas era o "dele" que ela sempre acabava por encontrar nas almofadas das camas onde se deitava.
Aquela noite tinha um sabor especial, um sabor a certo e a errado, a memórias e ao presente. O futuro não tinha lugar ali. O que ali havia era momentâneo, era volátil, mas era o que ambos precisavam para se libertar dos problemas que tinham deixado em casa. Como tinham conseguido transformar a inocência do que em tempos tinham sentido em algo tão nu e cru? Não interessava...
Retirou o telemóvel da mala e mandou um sms, provocando-o, impregnando-o de desejo. Ela estava ali, à espera dele, embaciando os vidros com a sua respiração adocicada. "Estou a chegar :)", recebeu de volta. A simplicidade daquelas palavras quebrava-a, numa altura que ela própria já tinha vencido as barreiras da timidez.
O coração parecia saltar-lhe no peito, acelerado, excitado. Passou pouco tempo até ouvir o trinco da porta do lado do passageiro. Ele entrou, inundando o assento com um aroma masculino. Ao fim daqueles anos olhavam-se agora sem receios ou pudores, espicaçando-se e atormentando-se mutuamente.
Ele aproximou-se demasiado, acariciou-lhe os longos cabelos pretos com determinação e puxou-a para ele, encontrando o corpo dela. No texting que ela lhe tinha mandado, tinha-lhe também dito que estava com frio. Acabava de confirmar as camadas de roupa que tinha para despir.
Longe dali, num cenário que tinha tudo para ser certo, uma mão delgada amparou uma chucha abafando um ténue choro. Enamorada por dois pequeninos olhos tão brilhantes, protegia aquele frágil ser com mel na voz: "O pai já vem..."
quinta-feira, 5 de abril de 2012
No bosque do tempo
A chuva escorria-lhe pelas costas do cabelo ensopado. O vestido de algodão colava-se-lhe ao corpo, dificultando-lhe os movimentos e até a respirar. Era suposto ter frio, mas não sentia coisa nenhuma. Não sentia nada de nada, a não ser um grande vazio em torno dela. Persistiam apenas os ecos da enxurrada de água abrir poças no terreno plano, perturbar furiosamente o espelho negro da lagoa e despir as árvores da sua frágil vestimenta de Inverno.
Não havia lugar para o sal das lágrimas se misturarem com a água doce que se abatia do negrume do céu, e a manhã já ia avançada. Ele partira fazia algumas horas, as suas pegadas já se tinham apagado com a lama a ser arrastada através dos pés descalços dela, mas ainda não se movera.
Talvez, permanecendo assim imóvel, conseguisse enganar o tempo e manter tudo como dantes. Talvez, se esperasse um pouco mais, o visse retornar com uma fagulha que fosse no olhar, cavalgando ao longe, elegante na sua sela e o som oco dos cascos nos charcos. Talvez acordasse, muito em breve.
Assim esperava, sem pressa, mas com a dúvida e o desolamento a rondar avidamente, também eles expetantes e vorazes para a engolir num covil demasiado fundo e ardiloso. Uma prisão de almas solitárias e errantes. Um leito espinhoso e implacável feito à sua medida.
Pouco a pouco afundava-se no lamaçal, prendendo-se à memória de uma palavra insuficiente e de um olhar fugaz, nem tão pouco uma aproximação que lhe permitisse reter um aroma, uma desejável textura. Então era isto? Era este o sabor do fim?
Fechou levemente a mão e sentiu esse movimento, enferrujado, contrariado. Tinha os dedos frios, dormentes e rijos. Apercebeu-se agora que tremia. Começava a sentir e isso era mais doloroso que tudo o que alguma vez sentira.
Não tinha deixado de olhar em frente, mesmo transportando-se para trás no tempo. Desta vez não viu nenhuma sombra fugidia, nenhum vulto, nenhuma ilusão. De facto, mal conseguia ver um palmo em diante de tão carregada que era tromba de água. Não fazia ideia de quando a chuva daria sinais de tréguas ou de quando um tímido raio de sol encontraria caminho para despontar detrás de uma nuvem cinzenta.
Só estava ela ali, desprotegida perante o poder da natureza. Os animais tinham procurado o refúgio das suas tocas, mesmo aqueles que tinham suspendido a fuga, por breves instantes, para a observar, curiosos. Muito perto dela, sobre uma árvore menos despojada, protegido numa toca, um mocho acordado admirava-a com os olhos semi-abertos. Percebeu, ao mesmo tempo que ela, o movimento das mãos, o girar da roda de fiar e a tapeçaria a começar, e piou, contra todas as expetativas diurnas.
Foi quando ela se voltou e começou a caminhar.
Não havia lugar para o sal das lágrimas se misturarem com a água doce que se abatia do negrume do céu, e a manhã já ia avançada. Ele partira fazia algumas horas, as suas pegadas já se tinham apagado com a lama a ser arrastada através dos pés descalços dela, mas ainda não se movera.
Talvez, permanecendo assim imóvel, conseguisse enganar o tempo e manter tudo como dantes. Talvez, se esperasse um pouco mais, o visse retornar com uma fagulha que fosse no olhar, cavalgando ao longe, elegante na sua sela e o som oco dos cascos nos charcos. Talvez acordasse, muito em breve.
Assim esperava, sem pressa, mas com a dúvida e o desolamento a rondar avidamente, também eles expetantes e vorazes para a engolir num covil demasiado fundo e ardiloso. Uma prisão de almas solitárias e errantes. Um leito espinhoso e implacável feito à sua medida.
Pouco a pouco afundava-se no lamaçal, prendendo-se à memória de uma palavra insuficiente e de um olhar fugaz, nem tão pouco uma aproximação que lhe permitisse reter um aroma, uma desejável textura. Então era isto? Era este o sabor do fim?
Fechou levemente a mão e sentiu esse movimento, enferrujado, contrariado. Tinha os dedos frios, dormentes e rijos. Apercebeu-se agora que tremia. Começava a sentir e isso era mais doloroso que tudo o que alguma vez sentira.
Não tinha deixado de olhar em frente, mesmo transportando-se para trás no tempo. Desta vez não viu nenhuma sombra fugidia, nenhum vulto, nenhuma ilusão. De facto, mal conseguia ver um palmo em diante de tão carregada que era tromba de água. Não fazia ideia de quando a chuva daria sinais de tréguas ou de quando um tímido raio de sol encontraria caminho para despontar detrás de uma nuvem cinzenta.
Só estava ela ali, desprotegida perante o poder da natureza. Os animais tinham procurado o refúgio das suas tocas, mesmo aqueles que tinham suspendido a fuga, por breves instantes, para a observar, curiosos. Muito perto dela, sobre uma árvore menos despojada, protegido numa toca, um mocho acordado admirava-a com os olhos semi-abertos. Percebeu, ao mesmo tempo que ela, o movimento das mãos, o girar da roda de fiar e a tapeçaria a começar, e piou, contra todas as expetativas diurnas.
Foi quando ela se voltou e começou a caminhar.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Muros
A cozinha tinha uma luz estranha naquela noite. Lá fora, a lua crescia possante num céu sem estrelas.
Por um lado, o ambiente estava agradavelmente quente e eu deixava-me embalar pela algazarra dos miúdos que, depois de um ano letivo demasiado longo, viam-se agora soltos numa arena aberta, com o mundo pela frente e poucas páginas de vida, escritas com a leveza própria da juventude.
Sentada muito direita na mesa, segurava as mãos uma na outra. Ao centro, o arranjo de flores murchava lentamente. Amanhã traria um ramo de gerânios da praça, anotei mentalmente.
Escutava-o por trás de mim a tirar a chaleira do lume e a dispor calmamente os pratos no balcão. Abriu a porta de um armário, depois outra.
- As chávenas estão à direita. - disse-lhe. Não acertava uma.
Ele não respondeu, nem tão pouco o ouvi suspirar perante o desdém que se conseguia adivinhar no meu tom de voz. Desta vez abriu a porta certa e terminou de fazer o chá, em silêncio. Só se ouvia a noite de verão, e com ela as notas de música que perdêramos em alguma altura.
Quantas mais coisas haveriam ainda por dizer? Verdades egoisticamente camufladas para me proteger. Proteger-me dele ou protegê-lo de mim? Ou protegê-la, a ela... Pensamentos agrestes que me corroíam até lugares insondáveis.Ele sentou-se à minha frente, com as duas chávenas fumegantes nas mãos, admirando-me com os olhos seguros de um felino, parcialmente cobertos pelo vapor que se elevava do chá. Com aquele olhar de quem continuaria a magoar-me propositadamente ao longo dos anos.
Por fim falou, com uma voz profunda que soaria sempre doce aos meus ouvidos. Perguntou-me, como se isso importasse:
- Queres falar?
Queria. Queria falar tanta coisa. Lutava contra um abismo de palavras com espinhos, pronta para o magoar de volta. Mas não havia forma. Entre nós havia um muro impenetrável, solidificado com o peso e a dureza dos nossos anos em conjunto. Na verdade, não havia nada de novo para dizer. Olhei através da janela, com os meus sonhos projetados para um futuro que já não existia para nenhum dos dois.
- Não. - respondi.
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