Quanto mais sentia o pulsar crescer nas paredes do interior da árvore, também a névoa que invadira seus pensamentos se dissipava permitindo-lhe ver mais claramente.
Levantou-se no escuro. Só agora entendia o que se tinha passado e deixava-se tomar pela apreensão. Tacteou o chão frio procurando não esbarrar em nada. Se fosse silencioso, talvez conseguisse escapar sem ser notado.
Até ali tudo bem. Chegado à porta, encostou nela o ouvido e esperou. Não escutou nada para além do esgravatar na madeira. Duvidava quantos e que tipo de animais invisíveis viviam dentro daquelas paredes mofadas e debaixo do chão empoeirado, e era preferível que assim se mantivesse.
Entreabriu a porta, que chiou baixinho. Empurrou-a, lentamente, espreitando. A porta da rua estava aberta deixando o luar entrar, hesitante. Isso nunca acontecia, mas ele desconhecia. Naquela noite, a lua lançava um brilho refulgente fora do normal, unindo-se aos elementos que trabalhavam com um único propósito. Sentiu uma leve brisa tocar o ar pesado e distinguiu lá fora um gotejar lento como se as águas mórbidas do pântano finalmente se movessem. Conseguia ouvir o batimento da antiga árvore, e o da terra também, dentro de si, fundindo-se nele com se fossem um só, crescendo como uma labareda.
Até que uma voz esganiçada cortou o ar e abalou o fogo dentro dele.
- Os meus amiguinhos não te deixam dormir? Posso tratar deles, se quiseres. Eu posso ser muito convincente, por vezes!
A criatura nojenta e esquisita aparecera, repentinamente, à sua frente, sem ele ter percebido como. Parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos, que emitiam um brilho sombrio àquela luz, e pareceu-lhe novamente que ficavam maiores. Tentou resistir, procurando a voz da terra, da árvore e das águas lamacentas. Sentiu os pensamentos tornarem-se de novo prisioneiros, mas agora também a lua se apoderava dele, chamando-o para a luz.
Puxou-se das trevas e perguntou:
- Quem és tu?
O duende riu-se como um tolo, andando de um lado para o outro, rondando-o e tentando atravessá-lo com o olhar afiado sempre que encontrava uma oportunidade. Algo o estava a deixar inquieto.
- Ogru, é como me chamam. Sou uma criatura da terra e da noite e vivo neste pântano há mais tempo do que me é possível recordar. Queres que faça mais chá? Não recebo visitas muitas vezes, o que me faz um tanto indelicado... - a voz dele tinha tantas entoações como a de um oportunista, esforçando-se por o confundir e ludibriar. Mas algo estava terrivelmente errado, pensava o duende malvado. Desta vez, estava a ser difícil! Quanto mais arremessava a sua mente na dele para a dominar, recuava em ricochete. E aquele barulho ensurdecedor... Tum-tum-tum-Tum-TUM-TUM! Os seus ouvidos... contorcia-se de dor! "Pára!" - gritava, silenciosamente.
- Não quero o teu chá! - bradou o rapaz, determinado. - És uma criatura das trevas, Ogru, e um trapaceiro! Não me voltas a enganar com os teus truques baratos.
O duende nunca tivera uma aparência agradável, nem que tentasse, mas depois de ser desafiado encarnou uma personagem ainda mais primitiva e vil. O seu corpo cresceu, os seus olhos ficaram brancos e das suas mãos nasceram garras cobertas de germes.
Ao mesmo tempo, o rasto inflamado da lua espalhava-se no chão à sua volta. Este parecia dobrar-se sobre si próprio, ondulando como as ondas do mar bravo. Então, as raízes soltaram-se, como presas indomáveis, precipitando-se contra a criatura ainda mais feia e deformada, que se defendeu ao saltar bruscamente para os lugares onde ainda reinava a penumbra.
- Recebi-te na minha casa e tu atreves-te a provocar-me e a insurgir-te contra mim? - protestou ele, no escuro. - Nada, nem ninguém, vai conseguir vencer-me e libertar-te! Mesmo que saias desta árvore maldita, o pântano será a tua masmorra. Juro por toda o mal e enfermidade que existe neste mundo! Estás muito longe de casa, criança... - a voz silenciou-se e desapareceu na escuridão.
O pó levantara-se, dificultando-lhe ver e a respirar. Não havia sinais de Ogru, mas o chão continuava a agitar-se e as paredes ameaçavam abater-se esmagando tudo o que encontrasse pelo caminho. O trilho cintilante da lua esbatia-se através do caos que se instalara e retrocedia em agonia.
Ele não sabia que lidava com poderes demasiado antigos, forças tão ancestrais e selvagens que na maioria das vezes desconheciam a razão. Agiam por impulso e emoção, comandados pelo instinto, e facilmente deixavam-se levar, propagando-se como fogo, e às vezes transformando-se nele. As suas causas não conheciam limites. Eram imprecisos e buscavam, unicamente, o equilíbrio entre todas as coisas.
Escutou uma gargalhada distante, conhecida, vibrar através da poeira. Em frente, a porta encolhia-se. Desconhecia se era a árvore que se afundava no chão ou se era a casca que se alongava para encerrar qualquer acesso para o covil do mal, e se ele não se resolvesse ficaria para sempre sepultado nas profundezas daquele tronco.
Avançou aos tropeções no chão móvel, transpondo as raízes vivas e os ramos que se recolhiam de fora para dentro como lanças afiadas cujo único desejo era enterrarem-se em carne fresca.
A entrada, ou saída conforme a perspetiva, já era pequena e não parava de reduzir. Era agora ou nunca! Inspirou todas as partículas de ar - e de pó! - que conseguiu e projetou-se com todo o ímpeto que tinha. A sua sorte foi que um braço de tronco tinha encontrado o trajeto e empurrara-o já no ar, atirando-o com a força primitiva e antepassada que se alimentava daquele lugar.
Ele aterrou com a cara no chão, do outro lado, a poucos centímetros da lama. Olhou para trás, a tempo de ver a porta encerrar-se eternamente, acorrentada por todos os séculos para trás. Depois, e finalmente, é que se deitou de barriga para cima, permitindo-se a um minuto de repouso, enquanto se inundava pelo luar brilhante, no entanto frio...
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terça-feira, 15 de maio de 2012
segunda-feira, 14 de maio de 2012
No pântano mal-amado (2)
Numa daquelas noites horrorosas, o duende tinha ido lá para fora sentar-se numa pedra à beira do pântano intoxicado. Tinha as suas curtas pernas estendidas ao luar, como uma criança inofensiva, e assobiava com silvos desengonçados que arranhavam o cérebro.
Estava abafado, como sempre! E cheirava a decomposição. As rãs e os sapos escondiam-se dele no baixo manto de neblina que roçava nas águas negras e lentas, cobrindo o pântano até à altura do seu pescoço. Não queriam ser o seu próximo jantar!
De repente, tudo à sua volta ficou ainda mais silencioso. O duende suspendeu a sua ária agreste e endireitou-se, chacoalhando os velhos ossos. Havia um timbre diferente no ar.
Passado pouco tempo, distinguiu um vulto cinzento ao longe, contornando um tufo alto de ervas ressequidas e seguindo pelo trilho grosseiro por onde já nunca ninguém passava.
Captou o som dos seus passos com as suas orelhas pontiagudas e sorriu com um ar travesso. Ele ouvia melhor que muitos animais!
- Uma pessoa para mim! Toda para mim... - sibilou entre dentes, como uma serpente venenosa.
Atirou-se da pedra para o chão. O salto não era grande, mas ele era muito baixinho, até para um duende. Curvado sob o peso da sua corcunda, correu, parecendo uma cepa torta, para a curva mais adiante que fazia esquina com o antro da sua casa. Ali ficou à espera, deitado debaixo de uma monstruosa raíz, o que lhe pareceu ser uma eternidade!
Até que o som dos passos ficou mais alto, misturando-se com a subtil respiração de quem já caminhava fazia tempo, e ele viu a sombra aparecer, estranhamente mais alumiada pelo luar do que ser ali alguma vez o fora. Sentiu a inveja e o desdém. Mais tarde ajustaria contas com aquela lua empertigada!
Quando o homenzinho estranho passou por cima dele, esticou o pé e deu-lhe um pontapé seco. Este tropeçou e quase jurou que ouvira uma gargalhada trocista. Admirado, olhou em volta. Viu a raíz onde julgara ter prendido o pé e para seu espanto esta parecia encolher-se humildemente. Depois, o duende saltou atrás das suas costas, sobressaltando-o mais uma vez.
Agora sim, estava assustado! À sua frente tinha um ser deveras perturbador, um rosto cheio cravado em cima de um corpo magro e viscoso. Sentiu o cheiro a peixe morto. Repelido pela imagem daquela massa disforme, olhou para os seus pés, desproporcionais ao resto da figura. E aquelas órbitas mais escuras que as águas do pântano, onde vagueava perdido há largas horas desde que enveredara por um atalho, um caminho tão sinistro que - entendia agora - só podia tê-lo guiado para um lugar tão soturno como aquele...
- Estás perdido! Este é um lugar cheio de perigos a esta hora da noite. Anda, vem comigo!
Ouviu a peculiar criatura falar através de uma voz que lhe arrepiou os cabelos. Queria recusar, mas não conseguiu. Os seus olhos pretos cresceram e atraíram-no atrás dela, seguindo-a até ao outro lado da grande árvore onde tinha esbarrado - acreditava ele, ainda...
O duende continuava a falar, aliciando-o com comida para saciar a fome e uma cama para repousar o corpo cansado. Ele tinha acabado de fazer chá e biscoitos, ouvia, uma receita assombrosa da sua avó, "que descanse sem paz!" - teria ele dito?... não... ouvira mal, com certeza!
Viu-o atirar para trás uma porta minúscula cavada no tronco, que o obrigou a dobrar-se quase até ao chão para conseguir entrar. Cheirava pior lá dentro. Viu a criatura dirigir-se a um canto e acender uma vela verde.
- Sê mal-vindo à minha casa! - ele nem percebeu... - Senta-te.
Sentou-se na cadeira que ele virara para si. Ouviu um suspiro quando se sentou, mas não sabia de onde vinha.
O duende tirou um prato sujo da pia onde colocou uns bolos pretos. Serviu-lhe um chá vermelho, que tinha um sabor esquisito. Ainda tinha o travo e a impressão na língua da penugem que sentira.
Naquele momento, tentava descansar num quarto tão pequeno e desarrumado que parecia uma despensa. Não tinha janelas, tal como em toda a casa. E depois de ter apagado a vela - arrependera-se amargamente dessa ação -, a única luz era a dos milhares e insignificantes pares de olhos dos bichos que habitavam nas rugosidades das paredes circulares.
Estranhava, não só, tudo aquilo, como o facto de ter aceite ser levado sem levantar nenhuma questão, desde o momento em que trocara o olhar com o daquele ser que parecia ter saído de um conto de terror. Sentia-se pesado e embriagado, e sabia que não tinha sido do chá, pois já se sentia assim antes de penetrar nas entranhas daquela árvore.
Mas havia mais! Algo que, juntando a toda a excentricidade do que estava a viver, iria impedi-lo de fechar os olhos e de cair num sono atormentado. Deitado sobre um pano velho e amarelado que o seu anfitrião estendera no chão coberto de pó, o seu coração batia no mesmo compasso que o pulsar que pudera distinguir quando o silêncio da madrugada se instalou. Algo se debatia dentro daquela casca intemporal, fluindo nos veios do tronco e animando gradualmente um amaldiçoado estado latente, uma tremenda força que acordava ao fim de tantos e longos anos!
quarta-feira, 9 de maio de 2012
No pântano mal-amado (a dark tale for children)
Ele era um duende detestável, que vivia numa gigantesca árvore, tão feia e estranha quanto ele. A sua pele era cinzenta e translúcida, conseguindo ver-se os ossos quebrados através dela. Os cabelos eram escassos, mas mesmo assim conseguiam desgrenhar-se uns nos outros como os pêlos no interior do nariz de uma velha bruxa. E os seus olhos eram como duas cavernas escuras sem fim, rasgadas numa montanha agreste e solitária, cheia de rugas e borbulhas sebosas.
Quando ele falava, a boca distorcia-se num esgar assustador e a sua voz arrastava-se como uma lesma pestilenta, trazendo o bafo dos dentes podres, de onde se viam pendurados os restos de carne dos ratos que comera muitos anos antes.
Levantava-se todos os dias quando o sol se punha e deitava-se ao mesmo tempo que a pobre lua, que se encolhia de agonia cada vez que era obrigada a espalhar a sua sombria luz sobre ele. Ao pequeno-almoço, ele comia as órbitas e as patas dos gafanhotos e fazia chá com as asas dos morcegos. Arrotava sempre no fim, derrubando na mesa as aranhas das suas nefastas teias, armadas entre as velas que eram feitas com a cera dos seus ouvidos.
Nunca fazia a cama, nunca arrumava a casa, nem nunca a limpava. Também nunca recebia visitas, para quê dar-se ao trabalho? Mas tinha um plano, para o caso improvável disso acontecer, que era fazer ainda mais lixo e porcaria como sinal de boas-vindas, ou má fé! Era conforme para onde ele estivesse virado, que normalmente era para o lado que fosse mais endiabrado e maléfico. Na verdade, ele tinha muitas ideias para partidas de mau gosto, mas ainda não tinha tido oportunidade de as mostrar. Pois é. Ele era uma criatura muito desagradável e ninguém no pântano apreciava a sua companhia.
Até a casa onde ele vivia, uma abominável acácia, que em tempos fora bela e majestosa, desejada por todos os carvalhos, castanheiros e até pelos cedros - tão elegantes! -, perdera a sua frescura e murchara, reduzindo-se a uma mancha grotesca no lamaçal, quando o duende deformado se mudara para dentro dela. Lembrava-se do dia em que perdera todas as suas folhas num choro lamentável e quando todas as árvores a abandonaram, afastando-se dela perante a sua repugnante imagem.
Agora não passava de um grande e retorcido tronco oco, sem alma e sem vida, cujos ramos desmaiavam na lama, inabaláveis ao vento - se ele sequer se atrevesse a voar até ali - e a todas as intempéries. Nem uma única ave noturna tinha coragem de aterrar nas suas ramagens cheias de nódulos e quistos. O próprio sol recusava-se a dar-lhe calor!
Perdera toda e qualquer esperança de voltar a vestir as suas roupas de Primavera, de dar sombra aos casais de namorados e de brilhar refulgente no topo de uma colina verdejante. Sim, porque as árvores andam, sabiam? Mas muito devagarinho, os seus passos demorando anos para elas não serem notadas.
Que trágico destino, o dela...
Quando ele falava, a boca distorcia-se num esgar assustador e a sua voz arrastava-se como uma lesma pestilenta, trazendo o bafo dos dentes podres, de onde se viam pendurados os restos de carne dos ratos que comera muitos anos antes.
Levantava-se todos os dias quando o sol se punha e deitava-se ao mesmo tempo que a pobre lua, que se encolhia de agonia cada vez que era obrigada a espalhar a sua sombria luz sobre ele. Ao pequeno-almoço, ele comia as órbitas e as patas dos gafanhotos e fazia chá com as asas dos morcegos. Arrotava sempre no fim, derrubando na mesa as aranhas das suas nefastas teias, armadas entre as velas que eram feitas com a cera dos seus ouvidos.
Nunca fazia a cama, nunca arrumava a casa, nem nunca a limpava. Também nunca recebia visitas, para quê dar-se ao trabalho? Mas tinha um plano, para o caso improvável disso acontecer, que era fazer ainda mais lixo e porcaria como sinal de boas-vindas, ou má fé! Era conforme para onde ele estivesse virado, que normalmente era para o lado que fosse mais endiabrado e maléfico. Na verdade, ele tinha muitas ideias para partidas de mau gosto, mas ainda não tinha tido oportunidade de as mostrar. Pois é. Ele era uma criatura muito desagradável e ninguém no pântano apreciava a sua companhia.
Até a casa onde ele vivia, uma abominável acácia, que em tempos fora bela e majestosa, desejada por todos os carvalhos, castanheiros e até pelos cedros - tão elegantes! -, perdera a sua frescura e murchara, reduzindo-se a uma mancha grotesca no lamaçal, quando o duende deformado se mudara para dentro dela. Lembrava-se do dia em que perdera todas as suas folhas num choro lamentável e quando todas as árvores a abandonaram, afastando-se dela perante a sua repugnante imagem.
Agora não passava de um grande e retorcido tronco oco, sem alma e sem vida, cujos ramos desmaiavam na lama, inabaláveis ao vento - se ele sequer se atrevesse a voar até ali - e a todas as intempéries. Nem uma única ave noturna tinha coragem de aterrar nas suas ramagens cheias de nódulos e quistos. O próprio sol recusava-se a dar-lhe calor!
Perdera toda e qualquer esperança de voltar a vestir as suas roupas de Primavera, de dar sombra aos casais de namorados e de brilhar refulgente no topo de uma colina verdejante. Sim, porque as árvores andam, sabiam? Mas muito devagarinho, os seus passos demorando anos para elas não serem notadas.
Que trágico destino, o dela...
Do último desafio.
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