quinta-feira, 19 de abril de 2012

Retrato de uma amizade

As afinidades e os interesses nem por isso eram consonantes naquele grupo de quatro amigas.
Em relação à personagem que me vou focar, talvez a paixão pela leitura e a mística de uma das três, as convicções e a projeção de sonhos de outra e um pouco o gosto pela música da que sobrava, para além de achar esta excecionalmente engraçada e expontânea.
Mas definitivamente não se pelava por moda e desconhecia todas as tendências, atuais e passadas, e nem sequer fazia a mínima ideia das da próxima estação naquele ano. Dizem que há cores que predominam numas e noutras, ela não sabia nada disso. Curiosamente, eu também não, pelo que não me arrisco a alongar muito o assunto... Era um tanto ou quanto deslavada, sem um estilo próprio, odiava comprar roupa e frustrava-se ao final de dois minutos a especular sobre o que é que combinava com o quê.
Também não promovia o culto da corpo, não ia ao ginásio todos os dias, não se delongava na pele casca de laranja, até ficar deprimida, e achava mirabolante as várias correntes que se vendiam sobre as dietas. Sim, apreciava a ideia de um corpo esbelto, mas desejava acima de tudo sentir-se bem e saudável. Apesar de na maioria das vezes não se sentir nem uma coisa, nem outra.
E coisa que a deixava com um nó nos neurónios e arranhava-lhe a paciência eram as conversas demasiado femininas, ocas e trespassadas de clichés.
Todas estas coisas encontravam refúgio ali, um pouco mais que outras, umas personagens envergando mais, outras menos, em relação a cada uma das áreas.
Assim, quando marcavam encontros nas casas umas das outras, não esquecia de levar o seu portátil e, enquanto as três lançavam-se ao artesanato caseiro para depois vender nas feiras, criando peças de bijutaria absolutamente fenomenais (se conseguisse avaliar com olhos de quem entendia realmente da coisa), navegava pela internet e até escrevia qualquer coisa. Habitualmente, não levava nenhum livro porque já tinha em casa das três uma qualquer leitura, todos com marcador a localizar a página onde ficara no último encontro.
Ainda assim, ela estava lá e, inclusivamente, participava nos preparativos da tarde, com a confeção de um bolo, bolachas ou biscoitos para adoçarem os trabalhos. Aprendeu um pouco sobre pastelaria e até gostou. A isso ela deu hipótese. Talvez um dia se dignasse, também, a pegar numa revista de missangas, ou coisa que o valha, e a deixar de lado a sua arrogância e as ideias preconcebidas sobre a matéria.
A verdade é que sentia-se bem naquele ambiente, sentada na mesa ou numa poltrona desviada para poder ver, e nunca se sentiu excluída, dando ou não atenção ao que acontecia no sofá, próximo de si.
- Sinónimo de curioso? - atirava ela, por vezes, para o ar, compenetrada nas suas coisas.
- ... estranho - respondia a que se interessava pelas letras.
- O que estás a escrever? - perguntava outra sem desviar os olhos do alfinete.
A que não se ouvia estava distraída, como na maioria das vezes.
O que interessava, no fim de contas, era que as quatro partilhavam do mesmo prato de bolo, e às vezes do mesmo garfo, permaneciam unidas há já duas décadas e muitas mais adiante, se a vida o permitir...

4 comentários:

  1. Como um dos objetivos deste blog é servir de treino para a tua escrita, vejo-me impelida a tecer aqui uma crítica (espero que construtiva) ao que acabei de ler.

    Achei interessante a cena que descreveste, mas um pouco confusa. O facto de nunca dares nomes às personagens e não as definires (escreves sempre sem te referires à pessoa, ou seja, não dizes eu, nem tu nem ela, nem ele, começas logo pelo verbo) torna, por vezes, difícil de perceber a narrativa ou até o número de personagens. No iníio da história pensei que estavamos a falar de duas amigas, para o meio percebei que eram três e no final quatro.
    Logo no primeiro parágrafo, quando descreves "numa", "noutra" e a "terceira", pensei que te referias às afinidades. Só no fim, relendo tudo, compreendi finalmente a história toda.

    Espero que não leves a mal, mas os amigos não servem só para passar a mão pelas costas, e porque acredito no teu potencial, vejo aqui pontos em que podes trabalhar para seres ainda melhor.
    Na nossa cabeça as coisas têm uma sequência e um ritmo lógicos, mas para quem está de fora nem sempre é imediato ou "soa" da mesma forma.

    Gosto muito das tuas descrições, mas por vezes as frases demasiado compridas desorientam-me. Os diálogos, ainda que curtos, dão um dinamismo muito interessante às histórias. :)

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  2. Obrigada. Regra geral como são esboços que vão desenhando-se continuamente na minha cabeça, pormenores como esses escapam-se. Há coisas que escrevo um pouco para mim e outras que não dou especial cuidado. De qualquer forma anotei. =)

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  3. Antes mesmo de ler o teu comentário, reli o teu conto e percebi logo que o tinhas alterado. =)
    Ficou muito fixe a adaptação que fizeste para o melhorar!

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