sexta-feira, 20 de abril de 2012

Definhar imortal (2)

Ali estava ele, sentado em cima da pedra fria. Mais do que sentado, sentia-se largado e despojado de tudo, até da alma.
Já não chorava, mas a dor não diminuíra, simplesmente se consolidara, preservada como aquela pedra.
Estava prestes a escurecer. O céu tingia-se de laranja, em breve estaria rosado, depois arroxeado, azul e no final negro como as asas de um corvo, permitindo à lua e às estrelas brilharem fulgorosamente, como um sinal, uma marca de qualquer coisa. No seu caso, interpretava-o como uma memória do esplendor dos anos atrás. Tantos anos que já devia ter perdido a conta. Mas ele sabia quantos, contava-os pesadamente.
Naquele dia particular do ano, ele dirigia-se sempre ali, sem exceção. Aquela teria sido a data em que se vira casado com ela, e aquele seria mais um dos anos em que estariam a celebrar, se ela ainda estivesse com ele. Não estava, nem nunca mais iria estar, e a inevitabilidade desse facto abatia-se ainda sobre ele como uma rabanada de vento, uma onda possante ou um muro a cair. Esmagando tudo.
Aquele cenário magoava-o, iluminando sombriamente o que já estava morto. Mas não havia luz para ele, desde que ela morrera, ou mesmo antes, muito antes. Não havia vida, só um teatro de marionetas, um jogo que o impulsionava diariamente a fazer tudo aquilo que fazia. Ali, ele permitia-se morrer com ela, abandonando o seu corpo velho e cansado, gasto pela mágoa, e viajando através do tempo, ou para trás ou para uma realidade à parte, um futuro diferente, alternativo.
Recordava-a emoldurada naquelas janelas antigas e podres. Era magnífica, tão bela, à luz do candeeiro a óleo, atravessando o quarto com aquela camisa de dormir transparente que o espicaçava. Distinguia-lhe o sorriso provocante, exibindo o corpo generoso, tão doce, tão quente...
Escutava o seu riso ecoando pelos recantos do jardim e assistia novamente às perseguições meio que infantis, testemunhadas pelas seis estátuas de rostos sentenciosos e arrogantes, e àquela tarde em que quebraram a quietude das águas do lago, atirando-se como dois adolescentes apaixonados e ignorando todas e mais algumas regras da decência e do pudor.
Imaginava-os novamente juntos debaixo do alpendre, sentados sobre a mármore numa tarde de Verão, rodeados por risos mais infantis, risos de crianças a brincar; e muitos anos depois, mais próximo da idade dele naquele presente insípido e inanimado, as mãos deles enrugadas, depositadas uma sobre a outra, confirmando a firmeza e a durabilidade de uma união. Inalterável. Tão certo como o facto dela não fazer mais parte deste mundo.
Depois ele ouviu o ferro do portão centenário chiar na noite que entretanto caíra. Não viu nada, nem ouviu mais nada. O portão estava aberto numa noite sem som, sem movimento e sem cor, como uma evidência estranha e esquiva. Mas sentiu o perfume, aquela melíflua fragrância que reconheceria entre todas as que existissem no mundo inteiro. E não soube o fazer, nem o que pensar...

Mais um desafio que viu um fim!

*Os créditos da imagem aqui.

8 comentários:

  1. OMG! Até me arrepiei caramba.
    Depois acordei e estava no trabalho. Raios partam.
    Adorei.
    E agora podias pensar numa prequela, não? Até para testares um tipo de texto mais objectivo e directo (porque não uma descrição crua da morte dela?)
    Fica a ideia...

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    1. Isso devia ser engraçado, mais ou menos o mesmo constrangimento que é para mim descrever uma cena de sexo! Lol
      É uma ideia que me incomoda, mas devo ficar a pensar nisso até tentar.
      Se não avançar é porque não sucedi! =P

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    2. Eu cá acho que tens todas as capacidades para suceder! Depende no negrume da morte da senhora.
      Por acaso ontem fui a um Q&A com o George Martin e ele disse que houve uma cena particularmente difícil de escrever no 3º livro, e ele basicamente terminou o livro e só aí é que resolveu escrever essa cena. E a escrita dele é bastante crua e despudorada! É uma questão de testarmos os nossos limites. Força nisso, gostava muito que esse exercício visse a luz do dia.

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  2. Não não, este não pode ser o fim do desafio. Uma prequela ou uma sequela, i don't care, but the show must go on. Please!!

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  3. Lembrou-me vagamente o estilo dark do Carlos Ruiz Zafón, um dos meus escritores favoritos. Já leste?

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    1. Não conheço, mas agora vou procurar algo desse senhor! ;)

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  4. Andreia: começa pela Sombra do Vento, que foi um best seller e é a melhor obra dele. Depois lê o "Marina", que é pequeno e lê-se num ápice. Não aconselho o "Jogo do Anjo" porque é um bocado deprimente, apesar de muito bom, mas não acrescenta muito ao primeiro, sendo uma sequela.

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