Este blog vai estar de férias a partir de hoje até dia 30 de Abril. Voltarei nessa altura com muitas mais histórias para contar. Porque a inspiração nas férias é mais do que muita!
Até lá!
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Definhar imortal (2)
Ali estava ele, sentado em cima da pedra fria. Mais do que sentado, sentia-se largado e despojado de tudo, até da alma.
Já não chorava, mas a dor não diminuíra, simplesmente se consolidara, preservada como aquela pedra.
Estava prestes a escurecer. O céu tingia-se de laranja, em breve estaria rosado, depois arroxeado, azul e no final negro como as asas de um corvo, permitindo à lua e às estrelas brilharem fulgorosamente, como um sinal, uma marca de qualquer coisa. No seu caso, interpretava-o como uma memória do esplendor dos anos atrás. Tantos anos que já devia ter perdido a conta. Mas ele sabia quantos, contava-os pesadamente.
Naquele dia particular do ano, ele dirigia-se sempre ali, sem exceção. Aquela teria sido a data em que se vira casado com ela, e aquele seria mais um dos anos em que estariam a celebrar, se ela ainda estivesse com ele. Não estava, nem nunca mais iria estar, e a inevitabilidade desse facto abatia-se ainda sobre ele como uma rabanada de vento, uma onda possante ou um muro a cair. Esmagando tudo.
Aquele cenário magoava-o, iluminando sombriamente o que já estava morto. Mas não havia luz para ele, desde que ela morrera, ou mesmo antes, muito antes. Não havia vida, só um teatro de marionetas, um jogo que o impulsionava diariamente a fazer tudo aquilo que fazia. Ali, ele permitia-se morrer com ela, abandonando o seu corpo velho e cansado, gasto pela mágoa, e viajando através do tempo, ou para trás ou para uma realidade à parte, um futuro diferente, alternativo.
Recordava-a emoldurada naquelas janelas antigas e podres. Era magnífica, tão bela, à luz do candeeiro a óleo, atravessando o quarto com aquela camisa de dormir transparente que o espicaçava. Distinguia-lhe o sorriso provocante, exibindo o corpo generoso, tão doce, tão quente...
Escutava o seu riso ecoando pelos recantos do jardim e assistia novamente às perseguições meio que infantis, testemunhadas pelas seis estátuas de rostos sentenciosos e arrogantes, e àquela tarde em que quebraram a quietude das águas do lago, atirando-se como dois adolescentes apaixonados e ignorando todas e mais algumas regras da decência e do pudor.
Imaginava-os novamente juntos debaixo do alpendre, sentados sobre a mármore numa tarde de Verão, rodeados por risos mais infantis, risos de crianças a brincar; e muitos anos depois, mais próximo da idade dele naquele presente insípido e inanimado, as mãos deles enrugadas, depositadas uma sobre a outra, confirmando a firmeza e a durabilidade de uma união. Inalterável. Tão certo como o facto dela não fazer mais parte deste mundo.
Depois ele ouviu o ferro do portão centenário chiar na noite que entretanto caíra. Não viu nada, nem ouviu mais nada. O portão estava aberto numa noite sem som, sem movimento e sem cor, como uma evidência estranha e esquiva. Mas sentiu o perfume, aquela melíflua fragrância que reconheceria entre todas as que existissem no mundo inteiro. E não soube o fazer, nem o que pensar...
Já não chorava, mas a dor não diminuíra, simplesmente se consolidara, preservada como aquela pedra.
Estava prestes a escurecer. O céu tingia-se de laranja, em breve estaria rosado, depois arroxeado, azul e no final negro como as asas de um corvo, permitindo à lua e às estrelas brilharem fulgorosamente, como um sinal, uma marca de qualquer coisa. No seu caso, interpretava-o como uma memória do esplendor dos anos atrás. Tantos anos que já devia ter perdido a conta. Mas ele sabia quantos, contava-os pesadamente.
Naquele dia particular do ano, ele dirigia-se sempre ali, sem exceção. Aquela teria sido a data em que se vira casado com ela, e aquele seria mais um dos anos em que estariam a celebrar, se ela ainda estivesse com ele. Não estava, nem nunca mais iria estar, e a inevitabilidade desse facto abatia-se ainda sobre ele como uma rabanada de vento, uma onda possante ou um muro a cair. Esmagando tudo.
Aquele cenário magoava-o, iluminando sombriamente o que já estava morto. Mas não havia luz para ele, desde que ela morrera, ou mesmo antes, muito antes. Não havia vida, só um teatro de marionetas, um jogo que o impulsionava diariamente a fazer tudo aquilo que fazia. Ali, ele permitia-se morrer com ela, abandonando o seu corpo velho e cansado, gasto pela mágoa, e viajando através do tempo, ou para trás ou para uma realidade à parte, um futuro diferente, alternativo.
Recordava-a emoldurada naquelas janelas antigas e podres. Era magnífica, tão bela, à luz do candeeiro a óleo, atravessando o quarto com aquela camisa de dormir transparente que o espicaçava. Distinguia-lhe o sorriso provocante, exibindo o corpo generoso, tão doce, tão quente...
Escutava o seu riso ecoando pelos recantos do jardim e assistia novamente às perseguições meio que infantis, testemunhadas pelas seis estátuas de rostos sentenciosos e arrogantes, e àquela tarde em que quebraram a quietude das águas do lago, atirando-se como dois adolescentes apaixonados e ignorando todas e mais algumas regras da decência e do pudor.
Imaginava-os novamente juntos debaixo do alpendre, sentados sobre a mármore numa tarde de Verão, rodeados por risos mais infantis, risos de crianças a brincar; e muitos anos depois, mais próximo da idade dele naquele presente insípido e inanimado, as mãos deles enrugadas, depositadas uma sobre a outra, confirmando a firmeza e a durabilidade de uma união. Inalterável. Tão certo como o facto dela não fazer mais parte deste mundo.
Depois ele ouviu o ferro do portão centenário chiar na noite que entretanto caíra. Não viu nada, nem ouviu mais nada. O portão estava aberto numa noite sem som, sem movimento e sem cor, como uma evidência estranha e esquiva. Mas sentiu o perfume, aquela melíflua fragrância que reconheceria entre todas as que existissem no mundo inteiro. E não soube o fazer, nem o que pensar...
Mais um desafio que viu um fim!
*Os créditos da imagem aqui.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
Retrato de uma amizade
As afinidades e os interesses nem por isso eram consonantes naquele grupo de quatro amigas.
Em relação à personagem que me vou focar, talvez a paixão pela leitura e a mística de uma das três, as convicções e a projeção de sonhos de outra e um pouco o gosto pela música da que sobrava, para além de achar esta excecionalmente engraçada e expontânea.
Mas definitivamente não se pelava por moda e desconhecia todas as tendências, atuais e passadas, e nem sequer fazia a mínima ideia das da próxima estação naquele ano. Dizem que há cores que predominam numas e noutras, ela não sabia nada disso. Curiosamente, eu também não, pelo que não me arrisco a alongar muito o assunto... Era um tanto ou quanto deslavada, sem um estilo próprio, odiava comprar roupa e frustrava-se ao final de dois minutos a especular sobre o que é que combinava com o quê.
Também não promovia o culto da corpo, não ia ao ginásio todos os dias, não se delongava na pele casca de laranja, até ficar deprimida, e achava mirabolante as várias correntes que se vendiam sobre as dietas. Sim, apreciava a ideia de um corpo esbelto, mas desejava acima de tudo sentir-se bem e saudável. Apesar de na maioria das vezes não se sentir nem uma coisa, nem outra.
E coisa que a deixava com um nó nos neurónios e arranhava-lhe a paciência eram as conversas demasiado femininas, ocas e trespassadas de clichés.
Todas estas coisas encontravam refúgio ali, um pouco mais que outras, umas personagens envergando mais, outras menos, em relação a cada uma das áreas.
Assim, quando marcavam encontros nas casas umas das outras, não esquecia de levar o seu portátil e, enquanto as três lançavam-se ao artesanato caseiro para depois vender nas feiras, criando peças de bijutaria absolutamente fenomenais (se conseguisse avaliar com olhos de quem entendia realmente da coisa), navegava pela internet e até escrevia qualquer coisa. Habitualmente, não levava nenhum livro porque já tinha em casa das três uma qualquer leitura, todos com marcador a localizar a página onde ficara no último encontro.
Ainda assim, ela estava lá e, inclusivamente, participava nos preparativos da tarde, com a confeção de um bolo, bolachas ou biscoitos para adoçarem os trabalhos. Aprendeu um pouco sobre pastelaria e até gostou. A isso ela deu hipótese. Talvez um dia se dignasse, também, a pegar numa revista de missangas, ou coisa que o valha, e a deixar de lado a sua arrogância e as ideias preconcebidas sobre a matéria.
A verdade é que sentia-se bem naquele ambiente, sentada na mesa ou numa poltrona desviada para poder ver, e nunca se sentiu excluída, dando ou não atenção ao que acontecia no sofá, próximo de si.
- Sinónimo de curioso? - atirava ela, por vezes, para o ar, compenetrada nas suas coisas.
- ... estranho - respondia a que se interessava pelas letras.
- O que estás a escrever? - perguntava outra sem desviar os olhos do alfinete.
A que não se ouvia estava distraída, como na maioria das vezes.
O que interessava, no fim de contas, era que as quatro partilhavam do mesmo prato de bolo, e às vezes do mesmo garfo, permaneciam unidas há já duas décadas e muitas mais adiante, se a vida o permitir...
Em relação à personagem que me vou focar, talvez a paixão pela leitura e a mística de uma das três, as convicções e a projeção de sonhos de outra e um pouco o gosto pela música da que sobrava, para além de achar esta excecionalmente engraçada e expontânea.
Mas definitivamente não se pelava por moda e desconhecia todas as tendências, atuais e passadas, e nem sequer fazia a mínima ideia das da próxima estação naquele ano. Dizem que há cores que predominam numas e noutras, ela não sabia nada disso. Curiosamente, eu também não, pelo que não me arrisco a alongar muito o assunto... Era um tanto ou quanto deslavada, sem um estilo próprio, odiava comprar roupa e frustrava-se ao final de dois minutos a especular sobre o que é que combinava com o quê.
Também não promovia o culto da corpo, não ia ao ginásio todos os dias, não se delongava na pele casca de laranja, até ficar deprimida, e achava mirabolante as várias correntes que se vendiam sobre as dietas. Sim, apreciava a ideia de um corpo esbelto, mas desejava acima de tudo sentir-se bem e saudável. Apesar de na maioria das vezes não se sentir nem uma coisa, nem outra.
E coisa que a deixava com um nó nos neurónios e arranhava-lhe a paciência eram as conversas demasiado femininas, ocas e trespassadas de clichés.
Todas estas coisas encontravam refúgio ali, um pouco mais que outras, umas personagens envergando mais, outras menos, em relação a cada uma das áreas.
Assim, quando marcavam encontros nas casas umas das outras, não esquecia de levar o seu portátil e, enquanto as três lançavam-se ao artesanato caseiro para depois vender nas feiras, criando peças de bijutaria absolutamente fenomenais (se conseguisse avaliar com olhos de quem entendia realmente da coisa), navegava pela internet e até escrevia qualquer coisa. Habitualmente, não levava nenhum livro porque já tinha em casa das três uma qualquer leitura, todos com marcador a localizar a página onde ficara no último encontro.
Ainda assim, ela estava lá e, inclusivamente, participava nos preparativos da tarde, com a confeção de um bolo, bolachas ou biscoitos para adoçarem os trabalhos. Aprendeu um pouco sobre pastelaria e até gostou. A isso ela deu hipótese. Talvez um dia se dignasse, também, a pegar numa revista de missangas, ou coisa que o valha, e a deixar de lado a sua arrogância e as ideias preconcebidas sobre a matéria.
A verdade é que sentia-se bem naquele ambiente, sentada na mesa ou numa poltrona desviada para poder ver, e nunca se sentiu excluída, dando ou não atenção ao que acontecia no sofá, próximo de si.
- Sinónimo de curioso? - atirava ela, por vezes, para o ar, compenetrada nas suas coisas.
- ... estranho - respondia a que se interessava pelas letras.
- O que estás a escrever? - perguntava outra sem desviar os olhos do alfinete.
A que não se ouvia estava distraída, como na maioria das vezes.
O que interessava, no fim de contas, era que as quatro partilhavam do mesmo prato de bolo, e às vezes do mesmo garfo, permaneciam unidas há já duas décadas e muitas mais adiante, se a vida o permitir...
terça-feira, 17 de abril de 2012
Prisão (2)
Havia um rapaz, que desconhecia a história que assombrava a aldeia. Era um forasteiro, um viajante do sul, que errara por desertos extensos, montanhas áridas e lagos secos.
Percorreu as calçadas solitárias da aldeia, através das ruínas silenciosas. Espionou as casas, com curiosidade, cujas portas e janelas tinham sido vedadas com tábuas, do lado de fora. Escutou uma madeira solta chiar ao vento, algures. E chutou, distraídamente, uma garrafa vazia diante da taberna, que rolou e ecoou exageradamente no largo da igreja.
Achou aquele cenário absolutamente invulgar e, apesar dos seus olhos nómadas experientes, não conseguiu evitar um calafrio. Mas foi junto às barricadas e aos destroços da última ponte que estacou, com apreensão. O que poderia ter causado tamanho pavor às gentes daquela aldeia para se isolarem daquela maneira? Teriam abandonado as suas casas e as suas vidas à custa do quê? Será que tinham realmente fugido ou algo, fora do anormal, acontecera? Tantas perguntas sem resposta...
Lançou o olhar além do braço do rio, a corrente fina de água deslizava sobre os seixos limosos suavizando a paisagem. Observou a planície descoberta e o sopé das montanhas, onde começavam os bosques, uma massa tão escura como nunca viu. O que escondiam aqueles cerrados, para lá das colinas e de uma floresta tão tenebrosa?
Próximo de si, uma das barricadas tinha cedido, provavelmente, com o avançar do tempo. Pelo estado dos materiais supunha que teriam passado muitos anos desde que a aldeia ficara à mercê de si própria.
Aproximou-se a avaliou o caminho até ao rio. Na verdade, não havia caminho. Seria difícil e perigoso, mas a prática dizia-lhe que não era uma missão impossível, por isso, desceu, agarrado às pedras, à terra e até aos tufos resistentes de vegetação e apoiando-se nos socalcos do despenhadeiro.
Finalmente, os seus pés pisaram o leito do rio. O lençol de água era muito fraco e, em alguns pontos, a profundidade máxima chegar-lhe-ia, talvez, aos joelhos. Não podia era descuidar-se com as pedras soltas e escorregadias.
Antes de avançar, tirou a mochila que trazia às costas e guardou nela as botas e as meias que descalçou. Depois de arregaçar as calças, apeou caminho, aliviando e refrescando os pés cansados na água translúcida.
Do outro lado, o terreno era menos acidentado e mais arrelvado. Flores arroxeadas despontavam, dispersas no campo, e desta vez sentiu, com igual prazer, os pés pisarem a erva aquecida pelos últimos raios de sol do dia.
Teria que acampar para a noite e escolheu a orla da floresta, a nordeste, para o efeito.
Confortou o estômago com apenas água e bolachas. Esperava reabastecer-se na aldeia que, então, descobriu estar abandonada. Pelo menos encontrara água fresca, onde enchera o seu cantil. Mas amanhã teria que pescar e caçar, antes de entrar na floresta. Ou melhor, antes de descobrir uma entrada, dado a vegetação ser tão peculiarmente frondosa.
A noite estava quente, o vento tinha amainado umas horas antes, mas cobria-se com uma manta que tinha tecido com a pele de uma cabra que caçara no Outono passado e descansava, agora, debaixo de um salgueiro, atravessando com o olhar as folhagens até ao céu estrelado. Era a noite mais escura desde há um mês atrás, por isso viam-se tantas estrelas, milhares de pontos luminosos a brilhar debilmente num manto negro.
Estava quase a adormecer, perdendo-se nas malhas de sonhos supersticiosos, quando uma brisa gelada desceu sobre o seu rosto e um galho partiu-se muito próximo de si.
Levantou-se de um salto, ainda a tempo de seguir o som fugidio de arbustos a remexerem. Pareceu-lhe, para seu assombro, o som de uma gargalhada indecorosa a desaparecer nas profundezas da floresta...
Percorreu as calçadas solitárias da aldeia, através das ruínas silenciosas. Espionou as casas, com curiosidade, cujas portas e janelas tinham sido vedadas com tábuas, do lado de fora. Escutou uma madeira solta chiar ao vento, algures. E chutou, distraídamente, uma garrafa vazia diante da taberna, que rolou e ecoou exageradamente no largo da igreja.
Achou aquele cenário absolutamente invulgar e, apesar dos seus olhos nómadas experientes, não conseguiu evitar um calafrio. Mas foi junto às barricadas e aos destroços da última ponte que estacou, com apreensão. O que poderia ter causado tamanho pavor às gentes daquela aldeia para se isolarem daquela maneira? Teriam abandonado as suas casas e as suas vidas à custa do quê? Será que tinham realmente fugido ou algo, fora do anormal, acontecera? Tantas perguntas sem resposta...
Lançou o olhar além do braço do rio, a corrente fina de água deslizava sobre os seixos limosos suavizando a paisagem. Observou a planície descoberta e o sopé das montanhas, onde começavam os bosques, uma massa tão escura como nunca viu. O que escondiam aqueles cerrados, para lá das colinas e de uma floresta tão tenebrosa?
Próximo de si, uma das barricadas tinha cedido, provavelmente, com o avançar do tempo. Pelo estado dos materiais supunha que teriam passado muitos anos desde que a aldeia ficara à mercê de si própria.
Aproximou-se a avaliou o caminho até ao rio. Na verdade, não havia caminho. Seria difícil e perigoso, mas a prática dizia-lhe que não era uma missão impossível, por isso, desceu, agarrado às pedras, à terra e até aos tufos resistentes de vegetação e apoiando-se nos socalcos do despenhadeiro.
Finalmente, os seus pés pisaram o leito do rio. O lençol de água era muito fraco e, em alguns pontos, a profundidade máxima chegar-lhe-ia, talvez, aos joelhos. Não podia era descuidar-se com as pedras soltas e escorregadias.
Antes de avançar, tirou a mochila que trazia às costas e guardou nela as botas e as meias que descalçou. Depois de arregaçar as calças, apeou caminho, aliviando e refrescando os pés cansados na água translúcida.
Do outro lado, o terreno era menos acidentado e mais arrelvado. Flores arroxeadas despontavam, dispersas no campo, e desta vez sentiu, com igual prazer, os pés pisarem a erva aquecida pelos últimos raios de sol do dia.
Teria que acampar para a noite e escolheu a orla da floresta, a nordeste, para o efeito.
Confortou o estômago com apenas água e bolachas. Esperava reabastecer-se na aldeia que, então, descobriu estar abandonada. Pelo menos encontrara água fresca, onde enchera o seu cantil. Mas amanhã teria que pescar e caçar, antes de entrar na floresta. Ou melhor, antes de descobrir uma entrada, dado a vegetação ser tão peculiarmente frondosa.
A noite estava quente, o vento tinha amainado umas horas antes, mas cobria-se com uma manta que tinha tecido com a pele de uma cabra que caçara no Outono passado e descansava, agora, debaixo de um salgueiro, atravessando com o olhar as folhagens até ao céu estrelado. Era a noite mais escura desde há um mês atrás, por isso viam-se tantas estrelas, milhares de pontos luminosos a brilhar debilmente num manto negro.
Estava quase a adormecer, perdendo-se nas malhas de sonhos supersticiosos, quando uma brisa gelada desceu sobre o seu rosto e um galho partiu-se muito próximo de si.
Levantou-se de um salto, ainda a tempo de seguir o som fugidio de arbustos a remexerem. Pareceu-lhe, para seu assombro, o som de uma gargalhada indecorosa a desaparecer nas profundezas da floresta...
segunda-feira, 16 de abril de 2012
As Brumas do Oriente (2)
Era uma fêmea, ele sentiu-o quando a viu ondular atrás das colunas tombadas sobre a areia e da cauda emanou uma áurea, brilhando misteriosamente nas águas escuras, uma luz azul revelando um vulto esguio e voluptuoso, de longos cabelos flutuantes e reflexos marinhos numa pele sobrenatural.
De alguma forma admirou-se. Não esperava este encontro e o encanto ameaçou os escudos que tinha erguido em torno do seu corpo mortal.
Nunca seria um duelo mítico. Não estava à altura das histórias de glória e de imortalidade desta extraordinária criatura e do submundo onde pertencia. Não tinha dúvidas que o esmagaria entre as suas presas colossais, fosse homem ou mulher. Se já se sentia uma anedota, agora sentia-se humilhado. Haveria alguma forma de reclamar as pedras sem ter que lutar? Os fragmentos de esperança jaziam naufragados entre as ruínas silenciosas daquele mar.
Desviou, involuntariamente, o olhar para cima, milhas abaixo da superfície, onde certamente pairava um luar sombrio, navegando sobre o plácido manto sem sequer esboçar perturbar o seu espelho. Ainda lhe sobrava algum tempo para continuar a respirar, com segurança, debaixo de água.
Não possuía a profundidade e a reverência de um mito, mas trazia consigo uma pequena fracção de poder e magia daquele mundo. Não estava ali aleatoriamente, e só isso concedia-lhe valor e uma hipótese, ainda que a sombra dela.
Largou as dúvidas na corrente e enfrentou a sua profecia. Lançou o olhar no cenário em diante, para um cemitério que não permitia nenhuma forma de culto, de esplendorosas edificações, arqueadas pelo desgaste do tempo, que tinham-se tornado a morada de peixes e de outros animais marinhos.
Percorreu os blocos de pedra, a vegetação contígua e os bancos de areia, esforçando-se por tornar a sua visão mais nítida, imerso naquele imenso lençol baço. Até que os seus olhos encontraram duas pérolas brilhantes, redondas e temerárias, que sobressaíram do negrume de um pórtico onde os destroços se aglomeravam numa massa maior, e avançaram, um passo, o brilho frio crivado no seu corpo como facas afiadas.
Assistiu, com temor e repulsa, ao olhar que lhe congelou a alma, alçando um corpo monstruoso, alucinadamente curvo e carregado de escamas aguçadas. Duas extensas fileiras de dentes retorcidos, um focinho rugoso e encrispado e uma crina prateada, assemelhando-se à lâmina de várias espadas sobrepostas, compunham a cabeça daquela terrível criatura, guardiã dos mares, que observava, incrédula e ameaçadoramente, aquele que tivera a audácia de invadir o seu território interdito!
De alguma forma admirou-se. Não esperava este encontro e o encanto ameaçou os escudos que tinha erguido em torno do seu corpo mortal.
Nunca seria um duelo mítico. Não estava à altura das histórias de glória e de imortalidade desta extraordinária criatura e do submundo onde pertencia. Não tinha dúvidas que o esmagaria entre as suas presas colossais, fosse homem ou mulher. Se já se sentia uma anedota, agora sentia-se humilhado. Haveria alguma forma de reclamar as pedras sem ter que lutar? Os fragmentos de esperança jaziam naufragados entre as ruínas silenciosas daquele mar.
Desviou, involuntariamente, o olhar para cima, milhas abaixo da superfície, onde certamente pairava um luar sombrio, navegando sobre o plácido manto sem sequer esboçar perturbar o seu espelho. Ainda lhe sobrava algum tempo para continuar a respirar, com segurança, debaixo de água.
Não possuía a profundidade e a reverência de um mito, mas trazia consigo uma pequena fracção de poder e magia daquele mundo. Não estava ali aleatoriamente, e só isso concedia-lhe valor e uma hipótese, ainda que a sombra dela.
Largou as dúvidas na corrente e enfrentou a sua profecia. Lançou o olhar no cenário em diante, para um cemitério que não permitia nenhuma forma de culto, de esplendorosas edificações, arqueadas pelo desgaste do tempo, que tinham-se tornado a morada de peixes e de outros animais marinhos.
Percorreu os blocos de pedra, a vegetação contígua e os bancos de areia, esforçando-se por tornar a sua visão mais nítida, imerso naquele imenso lençol baço. Até que os seus olhos encontraram duas pérolas brilhantes, redondas e temerárias, que sobressaíram do negrume de um pórtico onde os destroços se aglomeravam numa massa maior, e avançaram, um passo, o brilho frio crivado no seu corpo como facas afiadas.
Assistiu, com temor e repulsa, ao olhar que lhe congelou a alma, alçando um corpo monstruoso, alucinadamente curvo e carregado de escamas aguçadas. Duas extensas fileiras de dentes retorcidos, um focinho rugoso e encrispado e uma crina prateada, assemelhando-se à lâmina de várias espadas sobrepostas, compunham a cabeça daquela terrível criatura, guardiã dos mares, que observava, incrédula e ameaçadoramente, aquele que tivera a audácia de invadir o seu território interdito!
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Prisão
Há muito tempo atrás, numa aldeia refugiada num vale, vivia uma triste rapariguinha de cabelos escorridos.
Levantava-se muito cedo para trabalhar nos campos com os pais, mas antes ainda ajudava a mãe com o pão na casa do forno. Quando voltava não tinha folga, como as outras crianças, para brincar e fazer ecoar risos e gargalhadas pelas lajes dos caminhos, até o sino da igreja consolidar a hora do jantar.
Era a única filha do casal. À noite, ajudava um pouco mais nas lidas da casa, enquanto o pai corrompia-se na taberna lá do sítio. Atravessara aquela idade em que pensava, primeiro, em si própria. Agora só lamentava pela sua mãe, largada sozinha longas horas noite dentro.
Com o pai, não tinha estabelecido grande afinidade. Ninguém era violento com ninguém, mas também não havia espaço para consolo. Para ela, não passavam de dois estranhos forçados a conviver na mesma casa.
Assim, antes de se deitar, abeirava-se à janela do seu quarto, com os olhos negros lançados ao longe, nas montanhas, depois dos bosques e da floresta, e sonhava com as terras além.
Mas logo veio a doença, que lhe roubou a mãe e, de uma certa forma, levou-lhe também o pai, que passou a prolongar, ainda mais, as madrugadas na companhia do vinho. E uma noite ele não voltou...
Ficou completamente sozinha. Ela e os crucifixos silenciosos da mãe à beira do leito.
Então, um dia, atravessando com o olhar os picos frondosos das montanhas, decidiu partir. Aventurou-se, sozinha, de sacola às costas, depois de transpor a última ponte sobre o último braço do rio, que separava a aldeia da incivilização, através da floresta e dos segredos lá mantidos, para nunca mais regressar. Todos conheciam os perigos que os bosques encerravam. As armadilhas dos caçadores, os animais selvagens, as cascatas resvaladiças, as plantas venenosas, a fome...
Não se soube mais dela e, depois disso, o mais certo era que o seu nome deixasse de ser comentado nas conversas entre os aldeãos, e até que o seu rosto fosse esquecido, mas isso não aconteceu. O nome dela ainda surge nas histórias de Inverno à lareira, bem como os fatídicos destinos que se lhe afiguraram, mas nos serões de outras casas, longe da aldeia.
Isto porque, na noite seguinte à sua partida, os sons vieram. Das sinuosas encostas, uma lúgubre lamúria desceu como uma neblina, densa e vagarosa, e abateu-se pairando sobre os telhados. Aterrorizou as gentes da aldeia e afugentou os mais corajosos para dentro das suas casas, que se fecharam e trancaram a sete chaves. Até os que não eram crentes passaram a rezar, a partir daquela noite...
Rapidamente vieram os avisos para ninguém se aventurar nas profundezas dos bosques e para as crianças não atravessarem a orla da floresta. Destruiu-se a última ponte e ergueram-se barricadas.
Assim viveu a aldeia até ao último dos seus dias, até ser abandonada e os últimos velhos morrerem, sem nunca ninguém ter prosseguido para norte, ou sequer ter-se avistado vir de lá alguém.
A vegetação tornou-se mais cerrada, as ramagens tão escuras e apertadas que os raios de sol deixaram de conseguir penetrar e acabaram por extinguir aquele choro sombrio e inconsolável, abafando-o e aprisionando-o nas masmorras da floresta.
Ninguém mais ouviu, mas isso não significava que (ela) não estivesse lá.
Este texto decorre do desafio lançado aqui.
Levantava-se muito cedo para trabalhar nos campos com os pais, mas antes ainda ajudava a mãe com o pão na casa do forno. Quando voltava não tinha folga, como as outras crianças, para brincar e fazer ecoar risos e gargalhadas pelas lajes dos caminhos, até o sino da igreja consolidar a hora do jantar.
Era a única filha do casal. À noite, ajudava um pouco mais nas lidas da casa, enquanto o pai corrompia-se na taberna lá do sítio. Atravessara aquela idade em que pensava, primeiro, em si própria. Agora só lamentava pela sua mãe, largada sozinha longas horas noite dentro.
Com o pai, não tinha estabelecido grande afinidade. Ninguém era violento com ninguém, mas também não havia espaço para consolo. Para ela, não passavam de dois estranhos forçados a conviver na mesma casa.
Assim, antes de se deitar, abeirava-se à janela do seu quarto, com os olhos negros lançados ao longe, nas montanhas, depois dos bosques e da floresta, e sonhava com as terras além.
Mas logo veio a doença, que lhe roubou a mãe e, de uma certa forma, levou-lhe também o pai, que passou a prolongar, ainda mais, as madrugadas na companhia do vinho. E uma noite ele não voltou...
Ficou completamente sozinha. Ela e os crucifixos silenciosos da mãe à beira do leito.
Então, um dia, atravessando com o olhar os picos frondosos das montanhas, decidiu partir. Aventurou-se, sozinha, de sacola às costas, depois de transpor a última ponte sobre o último braço do rio, que separava a aldeia da incivilização, através da floresta e dos segredos lá mantidos, para nunca mais regressar. Todos conheciam os perigos que os bosques encerravam. As armadilhas dos caçadores, os animais selvagens, as cascatas resvaladiças, as plantas venenosas, a fome...
Não se soube mais dela e, depois disso, o mais certo era que o seu nome deixasse de ser comentado nas conversas entre os aldeãos, e até que o seu rosto fosse esquecido, mas isso não aconteceu. O nome dela ainda surge nas histórias de Inverno à lareira, bem como os fatídicos destinos que se lhe afiguraram, mas nos serões de outras casas, longe da aldeia.
Isto porque, na noite seguinte à sua partida, os sons vieram. Das sinuosas encostas, uma lúgubre lamúria desceu como uma neblina, densa e vagarosa, e abateu-se pairando sobre os telhados. Aterrorizou as gentes da aldeia e afugentou os mais corajosos para dentro das suas casas, que se fecharam e trancaram a sete chaves. Até os que não eram crentes passaram a rezar, a partir daquela noite...
Rapidamente vieram os avisos para ninguém se aventurar nas profundezas dos bosques e para as crianças não atravessarem a orla da floresta. Destruiu-se a última ponte e ergueram-se barricadas.
Assim viveu a aldeia até ao último dos seus dias, até ser abandonada e os últimos velhos morrerem, sem nunca ninguém ter prosseguido para norte, ou sequer ter-se avistado vir de lá alguém.
A vegetação tornou-se mais cerrada, as ramagens tão escuras e apertadas que os raios de sol deixaram de conseguir penetrar e acabaram por extinguir aquele choro sombrio e inconsolável, abafando-o e aprisionando-o nas masmorras da floresta.
Ninguém mais ouviu, mas isso não significava que (ela) não estivesse lá.
Este texto decorre do desafio lançado aqui.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
As Brumas do Oriente
Dizia-se que quem possuísse as mágicas Gemas do Dragão comandaria as tropas através do pó e além da vastidão do mar. Ouvira-o em histórias e canções de guerra, numa noite sem luar, em torno de uma fogueira e à beira da estação que carregaria os ventos gelados e as tempestades do norte.
Em breve, as asperezas do Inverno ameaçariam as casas e o gelo avançaria sobre as águas espelhadas, diminuindo drasticamente as chances das buscas, se não as tornasse numa missão impossível.
O guardião das gemas era o próprio dragão, Deus dos oceanos, dos mares, dos rios e dos lagos.
Habitando as moradas submersas que quisesse, navegava sob os mantos azuis, atravessando grutas profundas, cruzando os céus quando precisava e voltando a mergulhar quando entendia. Flutuava entre os destroços de palácios revestidos de algas e engolidos pela fúria das águas, coroado por elevados tetos abobadados e rodeado de esquecidos tesouros refletidos nas suas escamas.
Não passavam de mitos, mas aqueles eram tempos conturbados, acumulados de dor e infelicidade. E os tempos de escuridão eram lembrados por trazerem consigo réstias de esperança e utopias.
Pensava nisso, resguardado do frio por grossas mantas que se abatiam sobre o seu corpo, desejando a queda do império, os seus inimigos derrotados e, quem sabe, o esplendor da coroa e do bastão do Grande Rei, do Imperador, a glória do próprio Deus do Sol para si!
Ignorava as sombras dos ramos que atravessavam a janela do seu quarto e se debatiam nas paredes nuas, desenhando cenários ameaçadores, os uivos do vento cortante, que gelavam a própria alma e escapam das frinchas para oscilar a vela em cima do móvel, e também a luz sombria e misteriosa que descia dos astros na noite escura.
Desdenhava os sinais do perigo que lhe eram revelados com complacência e a humildade que os seus pais tinham-se esforçado por lhe transmitir. Já não se importava com nada disso. Era tarde demais! A benevolência não os salvara da tortura e do ferro das espadas que tinham jurado fidelidade ao povo.
Certificar-se-ia de que os culpados cairiam perante o peso do seu punho e conhecessem a mágoa e a vingança que o tinham moldado. Levaria à sua frente quem e o que quer que fosse que se lhe atravessasse no caminho. Era o que tinha prometido...
Em breve, as asperezas do Inverno ameaçariam as casas e o gelo avançaria sobre as águas espelhadas, diminuindo drasticamente as chances das buscas, se não as tornasse numa missão impossível.
O guardião das gemas era o próprio dragão, Deus dos oceanos, dos mares, dos rios e dos lagos.
Habitando as moradas submersas que quisesse, navegava sob os mantos azuis, atravessando grutas profundas, cruzando os céus quando precisava e voltando a mergulhar quando entendia. Flutuava entre os destroços de palácios revestidos de algas e engolidos pela fúria das águas, coroado por elevados tetos abobadados e rodeado de esquecidos tesouros refletidos nas suas escamas.
Não passavam de mitos, mas aqueles eram tempos conturbados, acumulados de dor e infelicidade. E os tempos de escuridão eram lembrados por trazerem consigo réstias de esperança e utopias.
Pensava nisso, resguardado do frio por grossas mantas que se abatiam sobre o seu corpo, desejando a queda do império, os seus inimigos derrotados e, quem sabe, o esplendor da coroa e do bastão do Grande Rei, do Imperador, a glória do próprio Deus do Sol para si!
Ignorava as sombras dos ramos que atravessavam a janela do seu quarto e se debatiam nas paredes nuas, desenhando cenários ameaçadores, os uivos do vento cortante, que gelavam a própria alma e escapam das frinchas para oscilar a vela em cima do móvel, e também a luz sombria e misteriosa que descia dos astros na noite escura.
Desdenhava os sinais do perigo que lhe eram revelados com complacência e a humildade que os seus pais tinham-se esforçado por lhe transmitir. Já não se importava com nada disso. Era tarde demais! A benevolência não os salvara da tortura e do ferro das espadas que tinham jurado fidelidade ao povo.
Certificar-se-ia de que os culpados cairiam perante o peso do seu punho e conhecessem a mágoa e a vingança que o tinham moldado. Levaria à sua frente quem e o que quer que fosse que se lhe atravessasse no caminho. Era o que tinha prometido...
Subscrever:
Mensagens (Atom)

