quarta-feira, 20 de junho de 2012

A noite é uma criança


Ela era uma princesa da noite e vivia num antigo palácio na encosta de uma colina. O seu destino para todas as madrugadas era um alpendre abobadado, cujas paredes revestiam-se de murais esbatidos pelo tempo.
Depois de todos na casa se recolherem para os seus aposentos, incluindo as aias que dormiam no quarto ao lado, Ariadne levantava-se da sua cama e escapava-se para os corredores silenciosos, percorrendo-os, sempre com a graciosidade com que era conhecida, até à grande janela que emoldurava toda a parede a sul.
Conhecia todas as formas de brisa noturna que a envolviam quando abria os vidros e pisava as lajes do chão com os seus pés descalços. E encostada ao gradil florido, sustentado por colunas tão lisas quanto os seus dias eram monótonos, envergando uma fina capa de tecido sobre o seu corpo esguio, permitia ao luar curvar-se perante o seu encanto gelado...

Há dias e alturas na vida para as quais o tempo corre através dos nossos dedos, e as histórias aparecem como fragmentos, aspirando algo mais. 
Os meus filhos tiveram as suas festas de fim de ano na escola e, em breve, comemoram ambos o seu aniversário. E, apesar das poucas horas que dediquei à escrita, o que me conforta e me realiza a 100% é que tenho estado sempre junto deles, assistindo dos melhores lugares, e também dos bastidores, o que me faz uma mãe afortunada.
Há tempo para tudo na vida...

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Fragmentos medievais

As ondas rebentavam contra o casco, salpicando a amurada da embarcação. O vento estivera a favor, facilitando a navegação, o que lhes deu algumas horas de avanço. Dali, conseguia ver a costa entrecortada por falésias que o mar esculpira ao longo dos séculos. Para trás, a terra estendia-se por campos rasteiros, sem se distinguir nenhum vale ou elevação, até cair novamente no oceano.
Também ele tinha sonhado, visões que estava cada vez mais perto de entender...

A música animava o acampamento, sendo quase impossível resistir-lhe. A noite estava quente e o ambiente era alegre. Homens, mulheres, os mais velhos e os mais novos saltavam sobre a relva, uns com ritmo, outros desordenadamente; estes erguiam as canecas de cerveja entornando mais do que conseguiam beber. Ninguém estava atento o suficiente para se aperceber daqueles que não compareceram na dança de grupo, para se encontrarem na última tenda...

Algo na floresta despertara, apesar da noite estar bem avançada. O luar penetrava através das árvores centenárias, propagando o seu brilho no tapete de musgo onde ambos se deitavam. As nascentes murmuravam, um grilo cantava próximo dali e os galhos estalavam, num e noutro momento. E por detrás de um arbusto, confundindo-se com as sombras da madrugada, um ser ainda mais antigo vigiava, protegendo a serenidade do bosque, acalmando-o com o seu olhar celeste e a delicadeza do seu semblante...

Atirada contra a parede fria dos subterrâneos da fortaleza, embrenhada na escuridão, ela pensou pela primeira vez nos pais. O que estariam eles a fazer? Provavelmente a sua mãe tricotava sentada no alpendre, por vezes perdendo o olhar vazio no vasto oceano em diante, e o seu pai... o seu pai estaria à procura, agora não de um, mas de dois filhos. Não imaginava a desolação do destino que lhes tinha causado, e do seu próprio dali por instantes. Já ouvia o eco das correntes e dos pesados passos no corredor, cada vez mais e mais nítido...

O ressoar do chifre lançou-se sobre a planície como um trovão, marcando o início da guerra no crepúsculo. Os cavalos esperavam ansiosos no topo da colina. Num deles, montava Tenemur, e ao seu lado, como sempre, estava o seu companheiro e fiel amigo de todos os tempos, Wolfric. Podia ver-lhe a tez incendiada pela ânsia da batalha por travar e por fazer desabar o seu pesado machado sobre quem se lhe atravessasse no caminho. Devia-lhe a vida, mais do que uma vez, e em breve talvez tivesse a oportunidade de pagar a sua dívida. Se os céus o permitissem, ou o próprio Wolfric...

O seu vestido irradiava chamas de cor, rodopiando sobre o estrado, descobrindo um pedaço de pele aqui e ali, os cabelos sacudindo sobre o rosto e os braços, que alçava com alguma provocação entre olhares despidos de pretextos. Fazia tanto tempo que não a via sorrir, mordendo ligeiramente os lábios rosados na sua direção. Desejava-a todos os dias, e aquela noite não era exceção...

O que eu escolhi desta vez, foi algo bem mais desordenado. Já não faltavam os contos soltos... Escrevi com o coração, com maior ou menor sentido, ao ritmo de uma coletânea de músicas celtas, que definiram o conteúdo dos parágrafos despegados que aqui estão. Nem tão pouco estão com a revisão feita, por isso perdoem as incorreções. O que eu sentia falta desta liberdade...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

No fim do mundo

Kaya vivia no topo de um penhasco, sobre as cristas do mar azul. Naquela zona, o vento chicoteava as praias desertas, os rochedos escarpados e as planícies agrestes, que se estendiam numa circunferência delimitada pelas águas do oceano, uivando desde o amanhecer até de madrugada. Uma ou outra casa despontavam nos campos secos, todas semelhantes entre si, e a parca vegetação que se atrevia a crescer neles resistia aos vendavais e às tempestades que, com frequência, assomavam a região. Não havia muito mais naquele fim de mundo.
Todos os dias, sem exceção, Kaya passava o final de cada tarde debruçada sobre a imensidão que a rodeava, alta e hirta. Determinada a aguardar por algo ou alguém que a levasse para longe, dedicava-se a reviver os seus sonhos, um por um, enquanto o sol se deitava no horizonte e o entardecer lhe gelava a alma.
Não sabia que tipo de embarcação esperar, mas sabia que o seu bilhete de saída viria do mar. Era o que lhe diziam os sonhos, todas as noites, acordando-a para só voltar a adormecer quando o céu se tingia de um tom mais claro. Pouco tempo depois vinha a sua mãe para a despertar.
Quando partisse, os seus pais iriam ficar completamente sós. O seu único irmão tinha desaparecido muitos anos antes, mergulhando no abismo durante uma brincadeira mortal na falésia. O seu pai nunca recuperara da dor, ainda se lançando frequentemente no mar picado dentro de um bote humilde. Ela não sabia o que podia ele estar à procura, depois de todos aqueles anos, mas nunca se atrevera a perguntar. Na verdade, não havia muito que se dissesse ou ouvisse naquela casa, sendo que qualquer tentativa de diálogo caía rapidamente no silêncio, quebrado apenas pelo tilintar da loiça que a mãe se aprontava a arrumar, apesar de nunca haver nada fora do sítio.
Fazia algum tempo que ela soubera que iria partir. Foi quando os seus sonhos começaram, iluminando a única saída possível. Não havia mais nada para ela ali, a não ser um buraco sem fim que a oprimia. Não queria dizer que esta decisão não a magoasse, mas todos os dias já lhe doía a ausência de tudo...
Contemplava, então, as ondas bravias com o verde baço dos seus olhos, que também haviam perdido o brilho, à espera daqueles olhos que tinham voltado a acentuar o azul do mar, dos revoltos cabelos pretos, dos lábios molhados e salgados e daquele abraço compacto onde sentira o seu corpo docemente esmagado sobre o chão áspero do casco do barco. Continuava à espera de tudo aquilo outra vez, desde aquela primeira noite, há catorze luas atrás...

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Murmúrios da vila

O meu dia começou ali, naquele instante. Não usava relógio, mas o sol dizia-me que eram perto das cinco da tarde. Na verdade, eu não sei interpretar o horário do sol, mas guiei-me pela sombra do palácio, em pleno mês de Agosto, já que o local me era bem familiar.
As silhuetas avançavam ao longo das ruas sinuosas, tricotando caminho como se tivessem todo o tempo do mundo, avançando e retrocedendo, hesitando diante de um mapa e apontando o dedo para vários lugares ao mesmo tempo.
As minúsculas partículas de vidro incrustadas nos caminhos deixaram de refletir a luz, mas ninguém deu por isso, a não ser eu. Ainda era cedo, mas o sol já iniciara o seu lento e secreto percurso de fuga, enquanto dezenas de pessoas inundavam a praça central, igual a todos os dias.
Sorvi lentamente o cigarro, retendo a voluta de fumo até lacrimejar. Então, soltei-a, contemplando a imagem distorcida pela cortina trémula que ameaçava brotar dos meus olhos, moldando-se e trasformando-se numa massa duvidosa e indefinida, até a minha visão voltar ao normal. Esbocei uma careta de repreensão. Devia deixar de fumar, se é que valia a pena...
Entre os meus dedos, a coluna de cinza ameaçava tombar. Juntei-lhe o peso ambíguo da minha consciência e não resistiu muito mais. Por fim, atirei o cigarro ao chão e amachuquei-o nas lajes da ladeira que conduzia às traseiras do palácio.
Apesar de toda a azáfama diária da vila, naquele momento, Sintra ainda se entorpecia entre sonhos ancestrais. De noite é que velava a lua, ou a ausência dela, e todos os mistérios que se imiscuíam nas sombras. Normalmente, eu fazia parte, quando começassem os murmúrios...
Demorei-me um pouco mais na minha ociosidade, projetando, sem querer, a mente para trás.
Em diante, a serra elevava-se num terreno acidentado até à haste da bandeira. Lembrei-me do profundo prazer ao soerguer-me uma tarde sobre a varanda de um rochedo, lavado em suor, escutando-a sacudir ao vento. Detinha o mundo a meus pés, debaixo de uma chuva miudinha que fingia as lágrimas nos meus olhos, e nesse dia o meu espírito magoado e revolto encontrara um rumo mais apaziguado. Daí para a frente, trepar aquela encosta íngreme passou a fazer parte de um processo de cicatrização que infligi a mim mesmo.
Assim que os sinos tocaram confirmando as horas, apeei caminho. Desta vez, não havia lugar nem hora marcada, embora hora nunca tivesse havido.
Em breve, os telhados cobrir-se-iam de ouro e das janelas abertas seriam desvendados a pouco e pouco os fragmentos da história de cada família, menos a minha. A minha estrada é a mais vazia e solitária de todas...

Este é um texto que encontrei durante as arrumações da semana passada e que escrevi há cerca de uns sete ou oito anos. No entanto, não resisti a dar-lhe um tratamento ao transcrevê-lo para aqui. 

terça-feira, 15 de maio de 2012

No pântano mal-amado (3)

Quanto mais sentia o pulsar crescer nas paredes do interior da árvore, também a névoa que invadira seus pensamentos se dissipava permitindo-lhe ver mais claramente.
Levantou-se no escuro. Só agora entendia o que se tinha passado e deixava-se tomar pela apreensão. Tacteou o chão frio procurando não esbarrar em nada. Se fosse silencioso, talvez conseguisse escapar sem ser notado.
Até ali tudo bem. Chegado à porta, encostou nela o ouvido e esperou. Não escutou nada para além do esgravatar na madeira. Duvidava quantos e que tipo de animais invisíveis viviam dentro daquelas paredes mofadas e debaixo do chão empoeirado, e era preferível que assim se mantivesse.
Entreabriu a porta, que chiou baixinho. Empurrou-a, lentamente, espreitando. A porta da rua estava aberta deixando o luar entrar, hesitante. Isso nunca acontecia, mas ele desconhecia. Naquela noite, a lua lançava um brilho refulgente fora do normal, unindo-se aos elementos que trabalhavam com um único propósito. Sentiu uma leve brisa tocar o ar pesado e distinguiu lá fora um gotejar lento como se as águas mórbidas do pântano finalmente se movessem. Conseguia ouvir o batimento da antiga árvore, e o da terra também, dentro de si, fundindo-se nele com se fossem um só, crescendo como uma labareda.
Até que uma voz esganiçada cortou o ar e abalou o fogo dentro dele.
- Os meus amiguinhos não te deixam dormir? Posso tratar deles, se quiseres. Eu posso ser muito convincente, por vezes!
A criatura nojenta e esquisita aparecera, repentinamente, à sua frente, sem ele ter percebido como. Parecia ter dois buracos negros no lugar dos olhos, que emitiam um brilho sombrio àquela luz, e pareceu-lhe novamente que ficavam maiores. Tentou resistir, procurando a voz da terra, da árvore e das águas lamacentas. Sentiu os pensamentos tornarem-se de novo prisioneiros, mas agora também a lua se apoderava dele, chamando-o para a luz.
Puxou-se das trevas e perguntou:
- Quem és tu?
O duende riu-se como um tolo, andando de um lado para o outro, rondando-o e tentando atravessá-lo com o olhar afiado sempre que encontrava uma oportunidade. Algo o estava a deixar inquieto.
- Ogru, é como me chamam. Sou uma criatura da terra e da noite e vivo neste pântano há mais tempo do que me é possível recordar. Queres que faça mais chá? Não recebo visitas muitas vezes, o que me faz um tanto indelicado... - a voz dele tinha tantas entoações como a de um oportunista, esforçando-se por o confundir e ludibriar. Mas algo estava terrivelmente errado, pensava o duende malvado. Desta vez, estava a ser difícil! Quanto mais arremessava a sua mente na dele para a dominar, recuava em ricochete. E aquele barulho ensurdecedor... Tum-tum-tum-Tum-TUM-TUM! Os seus ouvidos... contorcia-se de dor! "Pára!" - gritava, silenciosamente.
- Não quero o teu chá! - bradou o rapaz, determinado. - És uma criatura das trevas, Ogru, e um trapaceiro! Não me voltas a enganar com os teus truques baratos.
O duende nunca tivera uma aparência agradável, nem que tentasse, mas depois de ser desafiado encarnou uma personagem ainda mais primitiva e vil. O seu corpo cresceu, os seus olhos ficaram brancos e das suas mãos nasceram garras cobertas de germes.
Ao mesmo tempo, o rasto inflamado da lua espalhava-se no chão à sua volta. Este parecia dobrar-se sobre si próprio, ondulando como as ondas do mar bravo. Então, as raízes soltaram-se, como presas indomáveis, precipitando-se contra a criatura ainda mais feia e deformada, que se defendeu ao saltar bruscamente para os lugares onde ainda reinava a penumbra.
- Recebi-te na minha casa e tu atreves-te a provocar-me e a insurgir-te contra mim? - protestou ele, no escuro. - Nada, nem ninguém, vai conseguir vencer-me e libertar-te! Mesmo que saias desta árvore maldita, o pântano será a tua masmorra. Juro por toda o mal e enfermidade que existe neste mundo! Estás muito longe de casa, criança... - a voz silenciou-se e desapareceu na escuridão.
O pó levantara-se, dificultando-lhe ver e a respirar. Não havia sinais de Ogru, mas o chão continuava a agitar-se e as paredes ameaçavam abater-se esmagando tudo o que encontrasse pelo caminho. O trilho cintilante da lua esbatia-se através do caos que se instalara e retrocedia em agonia.
Ele não sabia que lidava com poderes demasiado antigos, forças tão ancestrais e selvagens que na maioria das vezes desconheciam a razão. Agiam por impulso e emoção, comandados pelo instinto, e facilmente deixavam-se levar, propagando-se como fogo, e às vezes transformando-se nele. As suas causas não conheciam limites. Eram imprecisos e buscavam, unicamente, o equilíbrio entre todas as coisas.
Escutou uma gargalhada distante, conhecida, vibrar através da poeira. Em frente, a porta encolhia-se. Desconhecia se era a árvore que se afundava no chão ou se era a casca que se alongava para encerrar qualquer acesso para o covil do mal, e se ele não se resolvesse ficaria para sempre sepultado nas profundezas daquele tronco.
Avançou aos tropeções no chão móvel, transpondo as raízes vivas e os ramos que se recolhiam de fora para dentro como lanças afiadas cujo único desejo era enterrarem-se em carne fresca.
A entrada, ou saída conforme a perspetiva, já era pequena e não parava de reduzir. Era agora ou nunca! Inspirou todas as partículas de ar - e de pó! - que conseguiu e projetou-se com todo o ímpeto que tinha. A sua sorte foi que um braço de tronco tinha encontrado o trajeto e empurrara-o já no ar, atirando-o com a força primitiva e antepassada que se alimentava daquele lugar.
Ele aterrou com a cara no chão, do outro lado, a poucos centímetros da lama. Olhou para trás, a tempo de ver a porta encerrar-se eternamente, acorrentada por todos os séculos para trás. Depois, e finalmente, é que se deitou de barriga para cima, permitindo-se a um minuto de repouso, enquanto se inundava pelo luar brilhante, no entanto frio...

segunda-feira, 14 de maio de 2012

No pântano mal-amado (2)


Numa daquelas noites horrorosas, o duende tinha ido lá para fora sentar-se numa pedra à beira do pântano intoxicado. Tinha as suas curtas pernas estendidas ao luar, como uma criança inofensiva, e assobiava com silvos desengonçados que arranhavam o cérebro.
Estava abafado, como sempre! E cheirava a decomposição. As rãs e os sapos escondiam-se dele no baixo manto de neblina que roçava nas águas negras e lentas, cobrindo o pântano até à altura do seu pescoço. Não queriam ser o seu próximo jantar!
De repente, tudo à sua volta ficou ainda mais silencioso. O duende suspendeu a sua ária agreste e endireitou-se, chacoalhando os velhos ossos. Havia um timbre diferente no ar.
Passado pouco tempo, distinguiu um vulto cinzento ao longe, contornando um tufo alto de ervas ressequidas e seguindo pelo trilho grosseiro por onde já nunca ninguém passava.
Captou o som dos seus passos com as suas orelhas pontiagudas e sorriu com um ar travesso. Ele ouvia melhor que muitos animais!
- Uma pessoa para mim! Toda para mim... - sibilou entre dentes, como uma serpente venenosa.
Atirou-se da pedra para o chão. O salto não era grande, mas ele era muito baixinho, até para um duende. Curvado sob o peso da sua corcunda, correu, parecendo uma cepa torta, para a curva mais adiante que fazia esquina com o antro da sua casa. Ali ficou à espera, deitado debaixo de uma monstruosa raíz, o que lhe pareceu ser uma eternidade!
Até que o som dos passos ficou mais alto, misturando-se com a subtil respiração de quem já caminhava fazia tempo, e ele viu a sombra aparecer, estranhamente mais alumiada pelo luar do que ser ali alguma vez o fora. Sentiu a inveja e o desdém. Mais tarde ajustaria contas com aquela lua empertigada!
Quando o homenzinho estranho passou por cima dele, esticou o pé e deu-lhe um pontapé seco. Este tropeçou e quase jurou que ouvira uma gargalhada trocista. Admirado, olhou em volta. Viu a raíz onde julgara ter prendido o pé e para seu espanto esta parecia encolher-se humildemente. Depois, o duende saltou atrás das suas costas, sobressaltando-o mais uma vez.
Agora sim, estava assustado! À sua frente tinha um ser deveras perturbador, um rosto cheio cravado em cima de um corpo magro e viscoso. Sentiu o cheiro a peixe morto. Repelido pela imagem daquela massa disforme, olhou para os seus pés, desproporcionais ao resto da figura. E aquelas órbitas mais escuras que as águas do pântano, onde vagueava perdido há largas horas desde que enveredara por um atalho, um caminho tão sinistro que - entendia agora - só podia tê-lo guiado para um lugar tão soturno como aquele...
- Estás perdido! Este é um lugar cheio de perigos a esta hora da noite. Anda, vem comigo!
Ouviu a peculiar criatura falar através de uma voz que lhe arrepiou os cabelos. Queria recusar, mas não conseguiu. Os seus olhos pretos cresceram e atraíram-no atrás dela, seguindo-a até ao outro lado da grande árvore onde tinha esbarrado - acreditava ele, ainda...
O duende continuava a falar, aliciando-o com comida para saciar a fome e uma cama para repousar o corpo cansado. Ele tinha acabado de fazer chá e biscoitos, ouvia, uma receita assombrosa da sua avó, "que descanse sem paz!" - teria ele dito?... não... ouvira mal, com certeza!
Viu-o atirar para trás uma porta minúscula cavada no tronco, que o obrigou a dobrar-se quase até ao chão para conseguir entrar. Cheirava pior lá dentro. Viu a criatura dirigir-se a um canto e acender uma vela verde.
- Sê mal-vindo à minha casa! - ele nem percebeu... - Senta-te.
Sentou-se na cadeira que ele virara para si. Ouviu um suspiro quando se sentou, mas não sabia de onde vinha.
O duende tirou um prato sujo da pia onde colocou uns bolos pretos. Serviu-lhe um chá vermelho, que tinha um sabor esquisito. Ainda tinha o travo e a impressão na língua da penugem que sentira.
Naquele momento, tentava descansar num quarto tão pequeno e desarrumado que parecia uma despensa. Não tinha janelas, tal como em toda a casa. E depois de ter apagado a vela - arrependera-se amargamente dessa ação -, a única luz era a dos milhares e insignificantes pares de olhos dos bichos que habitavam nas rugosidades das paredes circulares.
Estranhava, não só, tudo aquilo, como o facto de ter aceite ser levado sem levantar nenhuma questão, desde o momento em que trocara o olhar com o daquele ser que parecia ter saído de um conto de terror. Sentia-se pesado e embriagado, e sabia que não tinha sido do chá, pois já se sentia assim antes de penetrar nas entranhas daquela árvore.
Mas havia mais! Algo que, juntando a toda a excentricidade do que estava a viver, iria impedi-lo de fechar os olhos e de cair num sono atormentado. Deitado sobre um pano velho e amarelado que o seu anfitrião estendera no chão coberto de pó, o seu coração batia no mesmo compasso que o pulsar que pudera distinguir quando o silêncio da madrugada se instalou. Algo se debatia dentro daquela casca intemporal, fluindo nos veios do tronco e animando gradualmente um amaldiçoado estado latente, uma tremenda força que acordava ao fim de tantos e longos anos!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Pausa

Não tenho atualizado este blog tão assiduamente quanto gostaria, mas uma força maior impeliu-me a atrasar um pouco este projeto.
Comprometi-me a atingir uma meta até ao dia de hoje, terminar uma etapa no livro que estou a escrever. Tem tudo a ver com disciplina e método, para além de ser uma obrigação para comigo e talvez, futuramente, para com aqueles que me lêem!
Mas na próxima semana prevejo já estar mais dedicada ao Um Conto por Dia.

Obrigada! E beijinhos.